PENSAMENTO E BATALHA | Conceitos vigentes de Bakunin. 150 anos depois
150 ANOS DE ETERNIZAÇÃO DE MIKHAIL BAKUNIN!
Há 150 anos atrás as ideias de Mikhail Bakunin deixava seu corpo e seguia com o mundo. Terminava no dia 1° de julho de 1876 uma vida inteira de insurreições, privações, exílios e principalmente, organização.
Hoje não celebramos sua morte, causada pelo reflexo de uma vida perseguida pelos Estados e burguesias. Celebramos a vida que teve, dedicada não a um ganho individual, mas a liberdade, que só pode ser coletiva e que soube defender em plenitude.
Aqui ainda estamos, bebendo de todo o acúmulo gerado pelas experiências de luta que participou e do combate as ideias que travou pelo verdadeiro significado das palavras. Vivemos hoje no Brasil, um Estado que tem como seu gestor de turno um representante de um partido que se diz ser dos trabalhadores, mas que põem em marcha a continuidade do genocídio, da exploração desenfreada do ambiente em nome do lucro e do projeto neoliberal de ajuste fiscal para a manutenção do pagamento da dívida pública, só nos mostram como estava certo Bakunin. Não importa quem seja o maquinista da vez, o Estado é um inimigo do povo.
Celebramos hoje a vida que dedicou ao povo e as ideias que surgiram deste compromisso que nos armou na luta contra o Estado e o capitalismo! A Coordenação Anarquista Brasileira organizou um compilado de seus escretos que ainda nos servem de lição e orientação nesse enfrentamento. Acesse o site da cabanarquista.com.br e confira!
VIVA MIKHAIL BAKUNIN!

Recortes de M. A. Bakunin
Seleção temática, os títulos são nossos.
Só serei verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me cercam, homens e mulheres, forem igualmente livres… de modo que quanto mais numerosos forem as pessoas livres que me rodeiam e quanto mais profunda e maior for a sua liberdade, tanto mais vasta, mais profunda e maior será a minha liberdade… eu só posso me considerar completamente livre quando a minha liberdade ou, o que é a mesma coisa, quando a minha dignidade, o meu direito humano… refletidos pela consciência igualmente livre de todos, forem confirmados pelo assentimento de todo mundo. A minha liberdade pessoal, assim confirmada pela liberdade de todos, estende-se até o infinito. (O Império Knuto-Germânico e a Revolução Social. 1871)
OS CAPITALISTAS SÃO ACIMA DE TUDO LIBERTICIDAS.
QUEREM O CAPITAL DEVORANDO TUDO PELO MERCADO E O ESTADO NORMALIZANDO A POBREZA.
Os liberais doutrinários, cuja lógica parte das premissas de liberdade individual, colocam-se como adversários do Estado. Sustentam que o governo, ou seja, o corpo de funcionários organizados e designados para cumprir as funções do Estado, é um mal necessário, e que o progresso da civilização consiste em diminuir sempre e continuamente os atributos e direitos dos Estados. Essa é a teoria, mas na prática esses mesmos liberais doutrinários, quando a existência ou a estabilidade do Estado está seriamente ameaçada, são tão fanáticos defensores do Estado quanto os monarquistas e os jacobinos.
…Na prática, seus interesses de classe tornam a imensa maioria dos liberais doutrinários membros da burguesia. Esta classe exige, apenas para si, os direitos e privilégios exclusivos da licença completa. A base socioeconômica de sua existência política não se baseia em outro princípio senão na licença irrestrita expressa nas famosas frases “laissez faire” e “laissez passer”. Mas eles querem essa anarquia apenas para si mesmos, não para as massas que devem permanecer sob a severa disciplina do Estado, porque são “muito ignorantes para desfrutar dessa anarquia sem abusar dela”. Na verdade, se as massas, cansadas de trabalhar para os outros, se rebelassem, todo o edifício burguês desabaria. Sempre e em toda parte, quando as massas estão inquietas, mesmo os liberais mais entusiastas se revertem imediatamente e se tornam os campeões mais fanáticos da onipotência do Estado.
…Segundo eles, a liberdade individual não é uma criação, um produto histórico da sociedade. Eles sustentam, ao contrário, que a liberdade individual é anterior a toda sociedade e que todos os homens são dotados por Deus de uma alma imortal. O ser humano é, portanto, um ser completo, absolutamente independente, à parte e fora da sociedade. Como um agente livre, anterior e separado da sociedade, ele necessariamente forma sua sociedade por um ato voluntário, uma espécie de contrato, seja ele instintivo ou consciente, tácito ou formal. Em suma, de acordo com esta teoria, os indivíduos não são o produto da sociedade, mas, pelo contrário, são levados a criar a sociedade por alguma necessidade como o trabalho ou a guerra.
Resulta dessa teoria que a sociedade, estritamente falando, não existe. A sociedade humana natural, o início de toda civilização, o único meio em que a personalidade e a liberdade do homem se forma e se desenvolve, não existe para eles. Por um lado, essa teoria reconhece apenas indivíduos auto suficientes vivendo isolados e, por outro lado, apenas uma sociedade criada arbitrariamente por eles e baseada em um contrato formal ou tácito, ou seja, do Estado. [Eles sabem muito bem que nenhum estado na história foi criado por contrato e que todos os estados foram estabelecidos por conquista e violência.] (O Império Knuto-Germânico e a Revolução Social. 1871)
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Entendo por individualismo esta tendência que – considerando toda sociedade, a massa dos indivíduos, como indiferentes, rivais, concorrentes, como inimigos naturais, em resumo, com os quais cada um é forçado a viver, mas que obstruem o caminho de cada um – leva o indíviduo a conquistar e estabelecer seu próprio bem-estar, sua prosperidade, sua felicidade apesar de todos, em detrimento e no dorso de todos os outros. É uma corrida ao campanário, um salve-se-quem-puder geral, em que cada um tenta chegar primeiro. Ai dos fracos que param, eles são ultrapassados. Ai daqueles que, fatigados, caem no percurso, eles são imediatamente esmagados… Nesta luta, necessariamente, muitos crimes serão cometidos; toda esta luta fratricida, por sinal, outra coisa não é senão um crime contínuo contra a solidariedade humana, que é a única base de toda moral. O Estado, que, como se diz, é o representante e o vingador da justiça, não impede a perpetração desses crimes, ele os perpetua e os legaliza, ao contrário. O que ele representa, o que ele defende, não é a justiça humana, é a justiça jurídica, que nada mais é senão a consagração do triunfo dos fortes sobre os fracos, dos ricos sobre os pobres…
…Os economistas burgueses nos dizem que eles são partidários de uma liberdade ilimitada dos indivíduos e que a concorrência é a condição dessa liberdade. Mas vejamos qual é essa liberdade. E, antes de mais nada, uma primeira questão: foi o trabalho separado, isolado, que produziu e que continua a produzir todas essas riquezas maravilhosas das quais nosso século se glorifica? Sabemos muito bem que não. O trabalho isolado dos indivíduos mal seria capaz de alimentar e vestir um pequeno povo…; uma grande nação só se torna rica e só pode subsistir pelo trabalho coletivo, solidariamente organizado. O trabalho para a produção das riquezas sendo coletivo, pareceria lógico que o proveito dessas riquezas também o fosse, não é mesmo? Pois bem, eis o que não quer, o que rejeita com ódio a economia burguesa. Ela quer o ganho isolado dos indivíduos. De todos? Oh não, absolutamente. Ela quer o proveito dos fortes, dos inteligentes, dos hábeis, dos felizes… (Três conferências aos operários do Vale de Saint-Imier. 1871)
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LIBERDADE NA BOCA DOS LIBERAIS BURGUESES É O PATRÃO SUGANDO SEM LIMITES
E A LEI DO FODA-SE PARA A CLASSE QUE TÁ EMBAIXO
Toda a prosperidade burguesa, nós sabemos, como prosperidade exclusiva, está fundada sobre a miséria e sobre o trabalho forçado do povo, forçado não pela lei, mas pela fome. Essa escravidão do trabalho denomina-se, é verdade, nos jornais liberais tais como o Journal de Genèbve, a liberdade do trabalho. Mas essa estranha liberdade é comparável àquela de um homem desarmado e nu, que se entregaria à mercê de um outro armado dos pés à cabeça. É a liberdade de fazer-se esmagar, abater. – Tal é a liberdade burguesa. Compreende-se que os burgueses a adorem e que os trabalhadores não a suportem absolutamente; pois essa liberdade é para os burgueses a riqueza, e para os trabalhadores a miséria.
Os trabalhadores estão cansados de serem escravos. Não menos que os burgueses, mais do que os burgueses, eles amam a liberdade, porque compreendem muito bem, sabem por uma dolorosa experiência que sem liberdade não pode haver para o homem dignidade nem prosperidade. Mas não compreendem a liberdade senão na igualdade; porque a liberdade na desigualdade é o privilégio, quer dizer, a fruição de alguns fundada no sofrimento de todos. – Eles querem a igualdade política e econômica simultaneamente porque a igualdade política sem a igualdade econômica é uma ficção, uma enganação, uma mentira, e eles não querem mais mentiras. Os trabalhadores tendem, então, necessariamente, a uma transformação radical da sociedade que deve ter por resultado a abolição das classes do ponto de vista econômico tanto quanto político, e a uma organização na qual todos os homens nascerão, se desenvolverão, instruirão, trabalharão e fruirão dos bens da vida em condições iguais para todos. Tal é o desejo da justiça, tal é, também, o objetivo final da Associação Internacional dos Trabalhadores. (A dupla greve de Genebra. 1869)
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Sim, a pobreza é a escravidão, é a necessidade de vender seu trabalho, e com seu trabalho sua pessoa, ao capitalista que te dá os meios de não morrer de fome. É preciso ter realmente o espírito interessado na mentira dos senhores burgueses para ousar falar da liberdade política das massas operárias! Bela liberdade essa que os escraviza aos caprichos do capital e os acorrenta, à vontade do capitalista, pela fome! … enquanto o capital permanecer de um lado e o trabalho do outro, o trabalho será o escravo do capital, e os trabalhadores, os governados dos senhores burgueses, que dão a vocês por ironia todos os direitos políticos, todas as aparências de liberdade, para conservar a realidade desta liberdade exclusivamente para eles mesmos.
O direito a liberdade sem os meios de realizá-la é apenas uma quimera. E amamos muito a liberdade para nos contentar com sua fantasia, não é mesmo? Nós desejamos sua realidade. Mas o que constitui o fundamento real e a condição positiva da liberdade? É o desenvolvimento integral e a plena fruição de todas as faculdades corporais, intelectuais e morais para todos. São, consequentemente, todos os meios materiais necessários à existência humana; são, em seguida, a educação e a instrução. Uma pessoa que morre de inanição, que se encontra esmagada pela miséria, que se acaba, a cada dia, de frio e de fome, e que, vendo sofrer todos aqueles a quem ama, não pode socorrê-los, não é livre… (Três conferências aos operários do Vale de Saint-Imier. 1871)
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É evidente que a liberdade não será restituída ao mundo e que os interesses reais da sociedade — de todos os grupos, de todas as organizações locais, bem como de todos os indivíduos que a compõem — só poderão encontrar verdadeira satisfação após a abolição do Estado. É evidente que todos os chamados interesses gerais da sociedade, que o Estado supostamente representa — e que, na realidade, não passam da negação geral e constante dos interesses positivos das regiões, províncias, comunas, associações e da maioria dos indivíduos submetidos ao Estado —, constituem uma abstração, uma ficção, uma mentira… — o Estado —, representa os interesses não menos positivos e reais da classe que hoje explora a sociedade principal, se não exclusivamente, e que, além disso, tende a englobar todas as outras: a burguesia. E, assim como o clero está sempre dividido — e hoje tende a dividir-se ainda mais em uma minoria muito poderosa e rica e uma maioria muito subordinada e bastante miserável —, também a burguesia e as suas diversas organizações sociais e políticas (na indústria, na agricultura, na banca e no comércio, bem como nas funções administrativas, financeiras, judiciárias, universitárias, policiais e militares do Estado) tendem a dividir-se cada vez mais numa oligarquia realmente dominante e numa massa de criaturas — mais ou menos vaidosas e mais ou menos derrotadas, vivendo numa ilusão perpétua e sendo constantemente empurradas para o proletariado por uma força irresistível: a do atual desenvolvimento econômico. Esses infelizes são inevitavelmente reduzidos a servir como instrumentos cegos dessa oligarquia todo-poderosa. (La Revolté. 1871)
ORGANIZAR OS LOCAIS DE TRABALHO COMO BASE FORTE DA UNIDADE.
DESENVOLVER A FUNDO A ORGANIZAÇÃO DE CLASSE PARA ENFRENTAR O PODER E CONSTRUIR O SOCIALISMO DE BAIXO PRA CIMA.
É verdade que há [no povo] uma grande força elementar, uma força sem dúvida nenhuma superior à do governo e à das classes dirigentes tomadas em conjunto; mas sem organização uma força elementar não é uma força real. É nesta inconstestável vantagem da força organizada sobre a força elementar do povo que se baseia a força do Estado. Por isso, o problema não é saber se eles [o
povo] podem se sublevar, mas se são capazes de construir uma organização que lhes dê os meios de
chegar a um fim vitorioso, não por uma vitória fortuita, mas por um triunfo prolongado e derradeiro. (A ciência e a urgente tarefa revolucionária. 1870).
É a ciência que ensina a recrutar os soldados do povo e a organizá-los mediante uma hábil disciplina, para formar um exército regular, que constitui a principal força repressiva do Estado destinada a manter o povo subjugado. É a ciência que ensina a distribuir, de forma inteligente e expeditiva, uns milhares de soldados para colocá-los nos lugares mais importantes de uma determinada região e assegurar o medo e a obediência da população. É a ciência que ensina a cobrir países inteiros com uma fina rede de organização burocrática e sujeitar, desunir e debilitar, por meio de regulamentações, decretos e outras medidas, o povo trabalhador para que nunca possa se unir e avançar, e fique assim sempre na situação salutar de uma relativa ignorância (ou seja, salutar para o governo, o Estado, as classes dirigentes), situação que faz difícil que o povo se deixe influir por novas ideias e personalidades dinâmicas.
Este é o único objetivo da organização governamental, da conspiração permanente do governo contra o povo. E a conspiração, que se declara abertamente como tal, abarca toda a diplomacia, a administração interna (militar, civil, política, tribunais, finanças e ensino) e a Igreja.
E é contra essa gigantesca organização, armada com todos os meios de repressão mentais e materiais, legais e ilegais, e que no extremo pode sempre contar com a colaboração de todas ou quase todas as classes dirigentes, contra as quais os pobres tem que lutar. O povo, ainda constituindo maioria esmagadora en número, está desarmado, é ignorante e desorganizado. É possível sua vitória? Existe alguma possibilidade de sair vencedor em sua luta?
Não é suficiente que o povo desperte e que se de conta de sua miséria e das causas da mesma. É certo que possui uma grande quantidade de poder básico, mais que o governo e todas as classes dirigentes; mas um poder elementar, não organizado, não constitui um poder real. O Estado se apoia precisamente nessa indiscutível vantagem da força organizada sobre a força elementar do povo.
Por consequencia, o problema não é se [o povo] tem ou não a capacidad de se rebelar, mas se pode criar uma organização que lhe permita alcançar a vitória con sua rebeldia – e não só uma vitória casual, senão um triunfo prolongado e definitivo.
Nisso, e somente nisso, se Apoia todo este urgente problema. Portanto, a primeira condição para conseguir a vitória do povo é alcançar um acordo entre o povo ou a organização de suas forças. (A ciência e a urgente tarefa revolucionária. 1870)
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As seções centrais são os Centros ativos e vivos onde se conserva, se desenvolve, e se explica a nova fé. Lá ninguém entra como operário especial desta ou daquela profissão; lá entram todos unicamente como trabalhadores em geral, com o fim da emancipação e da organização geral do trabalho e do novo mundo social baseado no trabalho, em todos os países. Os operários que fazem parte dela, deixando à entrada a sua qualidade de operários especiais ou “reais”, no sentido da especialidade, apresentam-se lá como trabalhadores “em geral”. Trabalhadores de que? Trabalhadores da idéia, da propaganda e da organização do poder tanto econômico como militante da Internacional: Trabalhadores da Revolução Social.
Se só houvesse, na Internacional, seções centrais, provavelmente elas já teriam conseguido formar conspirações populares para a inversão da ordem atual das coisas, conspirações de intenção, mas muito fracas para atingir seus fins, porque elas nunca poderiam arrastar e receber no seu seio senão um pequeníssimo número de operários, os mais inteligentes, os mais enérgicos, os mais convencidos e os mais dedicados. A imensa maioria, os milhões de proletários ficaria de fora, e, para inverter e destruir a ordem política e social que hoje nos esmaga, é preciso a concorrência destes milhões.
…Somente um pequeno número de indivíduos se deixa definir pela “idéia” abstrata e pura. Os milhões, as massas, não só no proletariado, mas também nas classes esclarecidas e privilegiadas, só se deixam arrastar pela força e pela lógica dos “fatos”, só compreendendo e encarando, a maior parte do tempo, os seus interesses imediatos e as suas paixões de momento, sempre mais ou menos cegas. Portanto, para interessar e para arrastar todo o proletariado na obra da Internacional, era preciso e é preciso aproximar-se dele não com idéias gerais e abstratas, mas com a compreensão real e viva dos seus males reais; e os seus males do dia a dia, ainda que apresentem um caráter geral para o pensador, e ainda que sejam na realidade efeitos particulares das causas gerais e permanentes, são infinitamente diversos, tomando uma multiplicidade de aspectos diferentes, produzidos por uma variedade de causas passageiras e reais. Tal é a realidade quotidiana destes males. Mas a massa do proletariado, que é forçada a viver sem pensar no dia de amanhã, agarra-se aos males de que sofre e dos quais é eternamente a vítima, precisa e exclusivamente nesta realidade, e nunca ou quase nunca na sua generalidade.
Então, para tomar o coração e conquistar a confiança, o consentimento, a adesão, a afluência do proletariado…, é preciso começar por falar, não dos males gerais de todo o proletariado internacional, nem das causas gerais que lhe dão nascença, mas dos seus males particulares, quotidianos, privados. É preciso falar de sua profissão e das condições do seu trabalho precisamente na localidade em que habita; da duração e da grande extensão do seu trabalho quotidiano, da insuficiência do seu salário, da maldade do seu patrão, da carestia dos víveres e da sua impossibilidade de nutrir e de instruir convenientemente a sua família. E propondo meios para combater os seus males e para melhorar a sua posição, não é preciso falar logo dos objetivos gerais e revolucionários que constituem neste momento o programa de ação da Associação Internacional dos Trabalhadores, tais como a abolição da propriedade individual hereditária e a instituição da propriedade coletiva; a abolição do direito jurídico e do Estado, e a sua substituição pela organização e federação livre das associações produtivas; provavelmente ele não compreenderia nada destes objetivos, e poderia mesmo acontecer que, estando influenciado pelas idéias religiosas, políticas e sociais que os governos e os padres procuraram inculcar-lhe, repelisse com desconfiança e cólera o propagandista imprudente que quisesse convertê-lo com esses argumentos. Não, primeiramente só é preciso propor objetivos que o seu bom senso natural e a sua experiência quotidiana não possam ignorar a utilidade, nem repeli-los. (Protesto da Aliança. 1871)
UMA POLÍTICA DE INDEPENDÊNCIA DE CLASSE DOS TRABALHADORES.
NÃO ANDAR A REBOQUE DAS CLASSES DOMINANTES, AS INSTITUIÇÕES E POLÍTICOS BURGUESES.
Pensamos que os fundadores da Associação Internacional agiram com grande sabedoria ao eliminar, de início, do programa dessa Associação, todas as questões políticas e religiosas. Sem dúvida, não lhes faltaram em absoluto nem opiniões políticas, nem opiniões antirreligiosas bem definidas; mas se abstiveram de emiti-las nesse programa porque seu objetivo principal era unir acima de tudo as massas operárias do mundo civilizado numa ação comum. Tiveram necessariamente de buscar uma base comum, uma série de simples princípios sobre os quais todos os operários, quaisquer que sejam, por sinal, suas aberrações políticas e religiosas, por pouco que sejam operários sérios, isto é, homens duramente explorados e sofredores, estão e devem estar de acordo.
…Adotar tal programa como esse da Internacional, fazer dele uma condição absoluta de ingresso nessa Associação, seria querer organizar uma seita, não uma associação universal; seria matar a Internacional.
Até hoje, desde o começo da história, ainda não houve política do povo, e entendemos por este termo os de baixo, a ralé operária que nutre o mundo com seu trabalho; só existiu a política das classes privilegiadas, essas classes que se serviram da força muscular do povo para destronar-se mutuamente, e para uma pôr-se no lugar da outra. O povo, por sua vez, nunca tomou partido por umas contra as outras senão na vaga esperança de que ao menos uma dessas revoluções políticas, das quais nenhuma pôde fazer-se sem ele, mas nenhuma se fez para ele, traria algum alívio à sua miséria e à sua escravidão seculares. Ele sempre se enganou. Mesmo a grande revolução francesa enganou-o. Ele matou a aristocracia nobiliária e pôs em seu lugar a burguesia. O povo não se chama escravo sem servo; ele é proclamado nascido livre em direito, mas de fato sua escravidão e sua miséria permanecem as mesmas.
E permanecerão sempre os mesmos enquanto as massas populares continuarem a servir de instrumento à política burguesa, chame-se essa política conservadora, liberal, progressista, radical, e mesmo que se desse as aparências mais revolucionárias do mundo. Pois toda política burguesa, quaisquer que sejam sua cor e seu nome, só pode ter, no fundo, um único objetivo: a manutenção da dominação burguesa; e a dominação burguesa é a escravidão do proletariado.
… A Internacional teve de começar limpando o terreno, e como toda política, do ponto de vista da emancipação do trabalho, encontrava-se então maculada de elementos reacionários, ela teve incialmente de expurgar de seu seio todos os sistemas políticos conhecidos, a fim de poder fundar sobre essas ruínas do mundo burguês a verdadeira política dos trabalhadores, a política da Associação Internacional.
Os fundadores da Associação Internacional dos Trabalhadores agiram com mais sabedoria ainda ao evitar introduzir princípios políticos e filosóficos como base dessa associação, e ao dar-lhe, de início, como único fundamento apenas a luta exclusivamente econômica do trabalho contra o capital, porque eles tinham a certeza de que, a partir do momento que um operário põe o pé nesse terreno, a partir do momento que, adquirindo confiança tanto em seu direito como na força numérica, ele engaja-se com seus companheiros de trabalho numa luta solidária contra a exploração burguesa, ele será necessariamente levado, pela própria força das coisas, e pelo desenvolvimento dessa luta, a logo reconhecer todos os princípios políticos, socialistas e filosóficos da Internacional, princípios que nada mais são, com efeito, do que a justa exposição de seu ponto de partida, de seu objetivo.
“A emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos próprios trabalhadores”, diz o preâmbulo de nossos estatutos gerais. E ele tem mil vezes razão em dizê-lo. É a base principal de nossa grande Associação. Mas o mundo operário ainda está ignorante de uma teoria, que lhe falta completamente. Portanto, só lhe resta uma única via: aquela de sua emancipação pela prática. Qual pode e deve ser essa prática? Só há uma. É aquela da luta solidária dos operários contra os patrões: a organização e a federação dos sindicatos de resistência. (A política da Internacional. 1869)
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Que desta organização, cada vez maior, da solidariedade militante do proletariado contra a exploração burguesa deva sair e surja efetivamente a luta política do proletariado contra a burguesia, quem duvida disso? Tanto os marxistas como nós, somos unânimes neste ponto. Mas aparece imediatamente a questão que nos separa tão profundamente dos marxistas. (Carta ao jornal La Liberté. 1872).
…Esta preocupação exclusiva dos interesses unicamente econômicos, seria a morte para o proletariado. Sem dúvida que a defesa e a organização destes interesses — questão de vida ou de morte para ele — devem constituir a base de toda a sua ação atual. Mas é impossível parar ai sem renunciar à humanidade e sem se privar da força intelectual e moral necessária à conquista dos seus direitos económicos…
– Mas então como resolver esta aparente contradição: por um lado, as questões filosóficas e políticas devem ser excluídas do programa da Internacional, e por outro elas devem ser discutidas necessariamente?
– Este problema é resolvido por si próprio: pela liberdade. Nenhuma teoria filosófica ou política deve entrar, como fundamento essencial, e como condição oficial obrigatória, no programa da Internacional…
Mas isto não implica que não possam e não devam ser livremente discutidas na Internacional todas as questões políticas e filosóficas. Pelo contrário, a existência de uma teoria oficial é que mataria, tornando-a absolutamente inútil, a discussão viva. (Fragmento de continuação de O Império Knuto-Germânico. 1872).
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Quer dizer que nós, socialistas revolucionários, não queremos o sufrágio universal, e que preferimos tanto o sufrágio restrito como o despotismo dum único? De modo nenhum. O que nós afirmamos, é que o sufrágio universal, considerado isoladamente e agindo numa sociedade baseada na desigualdade económica e social, nunca será para o povo senão um chamariz; que, da parte dos democratas burgueses, nunca será senão uma odiosa mentira, o instrumento mais seguro para consolidar, com uma aparência de liberalismo e de justiça, em detrimento dos interesses e da liberdade populares, a eterna dominação das classes exploradoras e possuidoras.
Por isso nós negamos que o sufrágio universal seja um instrumento de que o povo possa se servir para conquistar a justiça ou a igualdade económica e social; visto que, como acabo de o demonstrar, o sufrágio universal exercido… no meio da dependência e da ignorância popular… produzirá necessariamente e sempre um voto contrário aos interesses do povo…
A partir disto, nós afirmamos que os pretensos democratas socialistas que, nos países em que o sufrágio universal ainda não existe, se esforçam por persuadir o povo a conquistá-lo acima de tudo, como o fazem hoje os chefes do partido da democracia socialista na Alemanha, dizendo que a liberdade política é a condição prévia da sua emancipação econômica, ou são vítimas dum erro funesto, ou então enganam o povo. Ignorarão realmente, ou fazem que ignoram, que esta liberdade política prévia, …será esencialmente uma liberdade burguesa, isto é, baseada na escravatura econômica do povo, e por isso incapaz de produzir o seu contrário e de criar esta igualdade econômica e social que implica a destruição da liberdade exclusiva dos burgueses?
A revolução social não exclui absolutamente pra nada a revolução política. Pelo contrário, ela a implica necessariamente, mas imprimindo a ela um caráter totalmente novo, o da verdadeira emancipação do jugo do Estado pelo povo. Visto que todas as instituições e todas as autoridades políticas não foram criadas, definitivamente, senão com o fim de proteger e de garantir os privilégios econômicos das classes possuidoras e exploradoras contra as revoltas do proletariado, é claro que a revolução social deverá destruir estas instituições e estas autoridades, nem antes, nem depois, mas ao mesmo tempo que levar a sua mão audaciosa às bases econômicas da servidão do povo…
A revolução política, contemporânea e totalmente inseparável da revolução social, da qual será, por assim dizer, a expressão ou a manifestação negativa, não será mais uma transformação, mas uma grandiosa liquidação do Estado. (Manuscritos de Marselha. 1870).
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O absurdo do sistema marxista consiste precisamente nesta esperança de que encurtando o programa socialista, desmedidamente, para que seja aceite pelos burgueses radicais, transformará estes últimos em servidores inconscientes e involuntários da revolução social. É esse o grande erro; todas as experiências da história nos demonstram que uma aliança feita entre dois partidos diferentes se transforma sempre em proveito do mais retrógrado; essa aliança enfraquece necessariamente o partido mais avançado, enfraquecendo, falseando o seu programa, destruindo a sua força moral, a sua confianca em si próprio; enquanto que quando um partido retrógrado mente, está sempre e mais do que nunca na sua verdade… Quanto a mim, não hesito em dizer que todas as cortesias marxistas com o radicalismo, tanto reformista como revolucionário, dos burgueses, não podem ter outros resultados senão a desmoralização e a desorganização da força nascente do proletariado, e consequentemente uma nova consolidação da força estabelecida dos burgueses. (Carta ao jornal La Liberté. 1872).
PRINCÍPIO DA AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS PARA RESISTIR E COMBATER
O COLONIALISMO E O IMPERIALISMO. AUTOGOVERNO E FEDERAÇÃO.
Mas a burguesia só ama seu país porque, para ela, o país, representado pelo Estado, salvaguarda seus privilégios econômicos, políticos e sociais. Qualquer nação que retirasse essa proteção seria renegada por eles. Portanto, para a burguesia, o país é o Estado. Patriotas do Estado, tornam-se furiosos inimigos das massas se o povo, cansado de se sacrificar, de ser usado como objeto passivo pelo governo, se revolta contra eles. Se a burguesia tivesse de escolher entre as massas que se rebelam contra o Estado e os invasores prussianos da França, certamente escolheria estes últimos. Essa seria uma opção desagradável, mas eles são, no entanto, defensores do princípio do Estado contra a ralé inútil, as massas do mundo…
De onde os socialistas franceses tiraram a ideia absurda, arrogante e injusta de que têm o direito de desprezar a vontade de dez milhões de camponeses e impor-lhes seu sistema político e social? Qual é a justificativa teórica para esse direito fictício? Este alegado direito, na verdade, é outro dom burguês, uma herança política do revolucionismo burguês. E se baseia na suposta ou real superioridade da inteligência e da educação, ou seja, a alegada superioridade da civilização urbana sobre a rural. Mas você deve perceber que este princípio pode ser facilmente invocado para justificar toda conquista e consagrar toda opressão. A burguesia sempre usou este princípio para provar que é sua missão exclusiva e seu direito exclusivo de governar (ou o que dá no mesmo), de explorar todos os trabalhadores. Em conflitos entre nações, bem como entre classes, este princípio fatal sanciona toda autoridade invasora. Os alemães não invocaram repetidamente esse princípio para desculpar suas investidas contra a liberdade e independência dos eslavos e de outros povos e para legitimar sua germanização violenta e imposta? Não foi a sua afirmação de que tal subjugação é o triunfo da civilização sobre a barbárie?
…Declaro abertamente que nas relações entre as nações, como nas relações entre as classes, estarei sempre do lado daqueles que eles pretendem civilizar por meio desses métodos tirânicos. Vou me juntar a rebelião contra todos esses civilizadores arrogantes, sejam eles trabalhadores ou alemães; e ao fazê-lo, servirei à Revolução contra a reação. (Cartas a um francês na crise atual. 1870)
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O Estado não é a Pátria, é a abstração, a ficção metafísica, mística, política, jurídica da Pátria. As pessoas comuns de todos os países amam profundamente sua pátria; mas esse é um amor natural e real. O patriotismo do povo não é apenas uma ideia, é um fato; mas o patriotismo político, o amor ao Estado, não é a expressão fiel desse fato: é uma expressão distorcida por meio de uma falsa abstração, sempre em benefício de uma minoria exploradora.
A pátria e a nacionalidade são, como a individualidade, cada uma um fato natural e social, fisiológico e histórico ao mesmo tempo; nenhum deles é um princípio. Só isso pode ser chamado de princípio humano que é universal e comum a todos os homens; e a nacionalidade separa os homens, portanto não é um princípio. O que é princípio é o respeito que todos devem ter pelos fatos naturais, reais ou sociais. A nacionalidade, como a individualidade, é um desses fatos. Portanto, devemos respeitá-lo. Violá-lo é cometer um crime e, para falar a língua de Mazzini, torna-se um princípio sagrado cada vez que é ameaçado e violado. E é por isso que me sinto sempre sinceramente o patriota de todas as pátrias oprimidas.
Cada povo e a menor unidade popular têm seu próprio caráter, seu próprio modo específico de existência, sua própria maneira de falar, sentir, pensar e agir; e é esta idiossincrasia que constitui a essência da nacionalidade, que é o resultado de toda a vida histórica e a soma total das condições de vida desse povo.
Cada povo, como cada pessoa, são involuntariamente o que são e, portanto, têm o direito de ser elas mesmas. Nisso consiste os chamados direitos nacionais. Mas se um povo ou uma pessoa existe de fato de uma forma determinada, isso não significa que tem o direito de elevar a nacionalidade, em um caso, e a individualidade no outro, como princípios específicos, nem que devam passar a vida discutindo sobre a questão. Pelo contrário, quanto menos pensam em si próprios e quanto mais se impregnam de valores humanos universais, quanto mais vitalizados se tornam, mais carregados de significado a nacionalidade se torna em um caso e a individualidade em outro. (Carta aos meus amigos da Itália. 1871)
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“Não é o instinto popular, …é o estado que postula o patriotismo como um princípio e que o torna objeto de um culto religioso. O patriotismo popular, identificando-se com o livre desenvolvimento de uma comunidade natural, é naturalmente mais forte, mais intenso, mais real e a princípio mais selvagem na comuna. Depois, vai se tornando cada vez mais humano pelo desenvolvimento da vida coletiva, das necessidades, dos instintos, das idéias, se nada vier a interromper violentamente esse progresso natural e espontâneo da base ao topo, ela se alarga, se enfraquecendo sempre como um instinto natural e selvagem. Primeiro, pela federação livre das comunas das regiões, depois pela das regiões em um número ainda maior, um “conjunto nacional” maior que é chamado de nação a ser perdida, mais cedo ou mais tarde, sempre pelo mesmo caminho da federação livre na organização e na solidariedade da humanidade. (Artigo contra Mazzini. 1871)
A BUROCRATIZAÇÃO E O AUTORITARISMO SÃO LETAIS PARA A MUDANÇA SOCIAL.
ALTERNATIVA LIBERTÁRIA PARA O SOCIALISMO.
…É evidente que a ausência de oposição e de controle contínuo se tornam inevitavelmente uma fonte de depravação para todos os indivíduos que estão investidos por um poder social qualquer; e que aqueles que, entre esses, queiram de todo o coração salvar a sua moralidade pessoal deveriam ter o cuidado, primeiro, de nunca guardarem muito tempo este poder e, segundo, de provocarem, contra eles próprios, esta oposição e este controle salutar.
…Os membros dos comités de Genebra, sem dúvida por ignorância dos perigos que corriam, sob o ponto de vista da sua moralidade social, negligenciaram em geral a fazer isso. À força de se sacrificarem e de se dedicarem, fizeram do comando um doce hábito, e, por uma espécie de alucinação, natural e quase inevitável em todas as pessoas que têm o poder nas suas mãos durante muito tempo, acabaram por imaginar que eram homens indispensáveis.
Foi assim que se formou imperceptivelmente, no seio das próprias associações, tão francamente populares, dos operários da construção, uma espécie de aristocracia governamental…
Com a autoridade crescente dos comitês se desenvolveram naturalmente a indiferença e a
ignorância das seções em todas as questões, a não ser as das greves e do pagamento das cotas…
…Sob todos os outros aspectos, as seções dos operários da construção renunciaram a qualquer julgamento, a qualquer deliberação, a qualquer intervenção; elas confiam simplesmente nas decisões dos seus comitês. «Nós elegemos o nosso comitê, ele que decida.» Eis o que os operários da construção respondem frequentemente aos que se esforçam para conhecer a sua opinião sobre um problema qualquer. Eles acabaram por não ter mais nenhuma opinião, semelhantes a folhas brancas nas quais os seus comitês podem escrever tudo o que quiserem. Providenciando para que os seus comités não lhes peçam muito dinheiro e não os persigam muito para que paguem o que devem, estes podem, sem os consultar, decidir e fazer impunemente em seu nome tudo quanto lhes parecer bem. É muito cômodo para os comités, mas isto não é nada favorável para o desenvolvimento social, intelectual e moral das seções, nem para o desenvolvimento real da força coletiva da Associação Internacional. Pois, deste modo, a única coisa real são os comitês… Mas os comités, só representam a eles próprios, e só tendo atrás deles massas ignorantes e indiferentes, já não são capazes de formar senão uma força fictícia, não uma força verdadeira.
Esta força fictícia, consequência detestável e inevitável do autoritarismo, logo que introduzido na organização das seções da Internacional, é excessivamente favorável ao desenvolvimento de toda a espécie de intrigas, de vaidades, de ambições e de interesses pessoais; ela é até excelente para inspirar um contentamento pueril consigo próprio, e uma segurança tão ridícula como fatal ao proletariado; também é excelente para assustar a imaginação dos burgueses. Mas ela não servirá para nada na luta de morte que o proletariado de todos os países da Europa tem de sustentar agora contra a força ainda muito real do mundo burguês. (Continuação de Cartas a um francês sobre a crise atual. 1870)
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Pretender que um grupo de indivíduos, mesmo os mais inteligentes e os melhor intencionados, sejam capazes de se tornarem o pensamento, a alma, a vontade dirigente e unificadora do movimento revolucionário e da organização económica do proletariado de todos os países, é uma heresia de tal ordem contra o senso comum e contra a experiência histórica, que, perguntamos com espanto, como é que um homem tão inteligente como o Sr. Marx a pôde conceber?
Os papas tiveram, pelo menos para se desculparem, a verdade absoluta, que diziam ter nas mãos pela graça do Espírito Santo e na qual eles pareciam acreditar. O Sr. Marx não tem de modo algum esta desculpa e eu não o insultarei pensando que ele imagina ter inventado cientificamente qualquer coisa que se aproxime da verdade absoluta.
Eu concebo perfeitamente que os déspotas coroados ou não corados tenham podido sonhar com o cetro do mundo; mas o que dizer de um amigo do proletariado, de um revolucionário que diz querer seriamente a emancipação das massas e que, fazendo-se dirigente e árbitro supremo de todos os movimentos revolucionários que podem rebentar em diferentes países, ousa sonhar a submissão do proletariado de todos estes países a um pensamento único, desabrochado no seu cérebro! (Carta ao jornal La Liberté. 1872)
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Em todo o mundo, os revolucionários autoritários fizeram muito pouco para promover a atividade revolucionária, principalmente porque sempre quiseram fazer a revolução por si mesmos, por sua própria autoridade e seu próprio poder. Isso não poderia deixar de restringir severamente o âmbito da ação revolucionária, porque é impossível, mesmo para o revolucionário autoritário mais enérgico e realizador, compreender e lidar efetivamente com todos os múltiplos problemas gerados pela Revolução. Pois toda ditadura, seja ela exercida por um indivíduo ou de forma coletiva por relativamente poucos indivíduos, é necessariamente muito circunscrita, muito míope, e sua percepção limitada não pode, portanto, penetrar nas profundezas e abranger toda a gama complexa
da vida popular; assim como é impossível, mesmo para o navio mais gigantesco, conter as profundezas e a vastidão do oceano….
O que as autoridades revolucionárias — e deve haver o mínimo possível delas — devem fazer para organizar e difundir a Revolução? Elas devem promover a Revolução não emitindo decretos, mas agitando as massas à ação. Elas não devem, sob nenhuma circunstância, impor qualquer organização artificial sobre as massas. Pelo contrário, devem promover a auto-organização das massas em corpos autônomos, federados de baixo para cima. Isso poderia ser feito ganhando a cooperação dos indivíduos mais influentes, mais inteligentes e mais dedicados de cada localidade,
para garantir que essas organizações, na medida do possível, estejam em conformidade com nossos princípios. Aí reside o segredo do nosso triunfo.
Quem pode duvidar que a Revolução enfrentará muitos problemas difíceis? Você acha que uma revolução é brincadeira de criança, que não terá de superar inúmeros obstáculos? Os socialistas revolucionários de nossos dias não devem seguir o padrão estabelecido pelos revolucionários jacobinos de 1793. Muito pouco, se é que há alguma, de suas táticas merecem ser imitadas. A rotina revolucionária iria arruiná-los. Eles devem criar tudo de novo e basear suas políticas e atividades nas experiências de vida. (Cartas a um francês na crise atual. 1870)
NÚCLEOS DE UMA ORGANIZAÇÃO POLÍTICA FINALISTA ARTICULADA COM O MOVIMENTO DE MASSAS. CRITÉRIOS DE TRABALHO PARA RESISTIR E ATUAR EM CONTEXTOS REPRESSIVOS.
. . . A quem nos perguntar para que serve a existência da Aliança quando existe a Internacional, nós responderemos: a Internacional é, evidentemente, uma magnífica instituição, é incontestavelmente a mais bela, a mais útil, a mais benéfica criação deste século. Ela criou a base da solidariedade dos trabalhadores de todo o mundo. Ela deu um começo de organização através das fronteiras de todos os Estados e fora do mundo dos exploradores e dos privilegiados. Ela fez mais, já contém hoje os primeiros germes da organização da unidade que há-de existir e ao mesmo tempo deu ao proletariado de todo o mundo o sentimento da sua própria força. Estamos certos também dos grandes serviços que ela prestou à grande causa da revolução universal e social. Mas ela não é de modo nenhum uma instituição suficiente para organizar e para dirigir esta revolução.
Todos os revolucionários sérios que tiveram uma parte ativa nos trabalhos da Internacional, seja em que país fosse, desde 1864, ano da sua fundação, devem estar convencidos disso. A Internacional prepara os elementos da organização revolucionária, mas não a realiza. Ela prepara organizando a luta pública e legal dos trabalhadores solidários de todos os países contra os exploradores do trabalho, capitalistas, proprietários e empreiteiros das indústrias, mas nunca vai além disso. A única coisa que ela faz fora desta obra já tão útil, é a propaganda teórica das ideias socialistas nas massas operárias, obra igualmente muito útil, muito necessária à preparação da revolução das massas.
A Internacional, numa palavra, é um meio imenso favorável e necessário a esta organização,
mas ainda não é esta organização. A Internacional aceita no seu seio, abstraindo completamente todas as diferenças de crenças políticas e religiosas, todos os trabalhadores honestos, com todas as suas consequências, a solidariedade da luta dos trabalhadores contra o capital burguês explorador do trabalho. Esta é uma condição positiva, suficiente para separar o mundo dos trabalhadores do mundo dos privilegiados, mas insuficiente para dar ao primeiro uma direção revolucionária.
A Aliança é o complemento necessário da Internacional… — Mas a Internacional e a Aliança, convergindo para o mesmo objetivo final, perseguem ao mesmo tempo objetivos diferentes. — Uma tem por missão reunir as massas operárias, os milhões de trabalhadores, através das diferenças das nações e dos países, através das fronteiras de todos os Estados, num só corpo imenso e compacto; a outra, a Aliança, tem por missão dar às massas uma direção verdadeiramente revolucionária. Os programas de uma e de outra, sem serem nada opostos, são diferentes pelo próprio grau do seu desenvolvimento respectivo. O da Internacional, se o tomarmos a sério, contém em germe, mas só em germe, todo o programa da Aliança. O programa da Aliança é a explicação última daquele da Internacional. (Carta a Pablo. 1872).
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…Mesmo que conseguissem, à custa duma luta enérgica e hábil, salvaguardar a existência das suas seções públicas, eu acho que acabariam mais tarde ou mais cedo por compreender a necessidade de formar no meio delas núcleos compostos por membros mais seguros, mais dedicados, mais inteligentes e mais enérgicos, numa palavra, pelos mais íntimos.
Estes núcleos intimamente ligados entre si e com núcleos semelhantes que se organizam ou que se organizarão nas outras regiões da Itália ou do estrangeiro, terão uma dupla missão: primeiro, formarão a alma inspiradora e vivificante deste grande corpo a que chamamos Associação Internacional dos Trabalhadores tanto na Itália como em qualquer outro lado; e em seguida se ocuparão dos problemas que é impossível tratar publicamente. Eles formarão a ponte necessária entre a propaganda das teorias socialistas e a prática revolucionária. (Carta a Celso Cerretti. 1872)
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Meus amigos íntimos e aliados, membros da Aliança, provavelmente ficarão surpresos que eu fale assim — eu, que tenho estado tão preocupado com a teoria, que tenho sido o tempo todo um guardião ciumento e vigilante dos princípios revolucionários. Ah! Como os tempos mudaram! Então, não faz exatamente um ano, estávamos apenas nos preparando para uma revolução, que alguns esperavam mais cedo e outros mais tarde; mas agora até os cegos podem dizer que estamos no meio de uma revolução. Então, era absolutamente necessário salientar princípios teóricos, para expor claramente esses princípios e em toda a sua pureza, e assim construir um partido que, embora pequeno em número, seria composto por homens sinceros, plena e apaixonadamente dedicados a esses princípios, para que em tempos de crise cada um pudesse contar com a solidariedade de todos os outros.
Mas agora é tarde demais para se concentrar na inscrição de novos homens em tal organização. Para melhor ou pior, nós temos construído um pequeno partido: pequeno, no número de homens que se juntaram a ele com pleno conhecimento do que defendemos; imenso, se levarmos em conta aqueles que instintivamente se relacionam conosco, se levarmos em conta as massas populares, cujas necessidades e aspirações refletimos mais verdadeiramente do que qualquer outro grupo. Todos nós devemos agora embarcar em mares revolucionários tempestuosos e, a partir deste momento, devemos espalhar nossos princípios, não com palavras, mas com ações, pois esta é a mais popular, mais potente e mais irresistível forma de propaganda. Falemos menos sobre os princípios, sempre que as circunstâncias e a política revolucionária o exijam — isto é, em meio à nossa fraqueza momentânea em relação ao inimigo —, mas sejamos, em todos os momentos e sob todas as circunstâncias, inflexivelmente consistentes em nossa ação… (Cartas a um francês na crise atual. 1870)
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… A centralização e a civilização, as ferrovias, o telégrafo, os novos armamentos e a nova organização do exército, em fim, a ciência administrativa, quer dizer, a ciência da submissão e da exploração sistemática das massas, a ciência da domesticação de todo tipo de sublevações populares, está tão cuidadosamente elaborada, verificada pela experiência e aperfeiçoada no decurso dos últimos setenta e cinco anos de história contemporânea, acrescentando o fato de que o Estado e seu armamento representa atualmente uma força tão enorme, que todas as tentativas artificiais, os complôs secretos fora do povo, os ataques e os assaltos de surpresa viriam a despedaçar-se frente a esta força, que somente poderá ser vencida e destruída pela revolução espontânea, popular e social.
Assim, o único objetivo da associação secreta deve ser não o de constituir uma força artificial fora do povo, senão despertar, agrupar e organizar as forças populares espontâneas. Nestas condições, o exército da revolução, o único capaz e real, não está fora do povo, é o próprio povo. Não será desperto através de meios artificiais. As revoluções populares são engendradas pela própria força das coisas ou por essa corrente histórica que, invisível e subterrânea, incessante e a maior parte do tempo lenta, corre por entre as camadas populares, abarcando-as cada vez mais, penetrando gota a gota, até que se escape desde abaixo para fora sua selvagem corrente, até que rompa todos os obstáculos que encontrar no seu caminho.
Tal revolução é impossível artificialmente. Nem sequer se pode adiantar significativamente, ainda que eu não duvide que uma organização dirigida devidamente e inteligentemente possa facilitar sua explosão. Há períodos na história em que as revoluções são totalmente impossíveis; existem outros em que elas são inevitáveis… Todas as associações secretas que querem de verdade trabalhar por ela devem primeiro abandonar todo nervosismo, toda impaciência. Não devem adormecer, pelo contrário, devem manter-se dispostas dentro do possível em qualquer momento, estar, portanto, em alerta e sempre capazes de agarrar toda ocasião favorável. Mas ao mesmo tempo temos a necessidade de formá-las e organizá-las não para um levantamento próximo, senão para o trabalho clandestino paciente e de larga duração… (Carta a Nechayev. 1970)
ESTADO E REVOLUÇÃO. O PARTIDO NO PODER COMO MINORIA DOMINANTE E PRIVILEGIADA VERSUS O PODER DA CLASSE ATRAVÉS DAS SUAS PRÓPRIAS INSTITUIÇÕES FEDERATIVAS DE AUTOGESTÃO.
Esta revolução consistirá na expropriação quer progressiva, quer violenta, dos proprietários e dos capitalistas actuais, e na apropriação de todas as terras e de todo o capital pelo Estado, que, para
poder desempenhar a sua grande missão económica tão bem como a política, deverá ser necessariamente muito forte e muitíssimo concentrado. O Estado administrará e dirigirá a cultura da terra por meio dos seus engenheiros, escolhidos, e comandando exércitos de trabalhadores rurais, organizados e disciplinados para esta cultura. Ao mesmo tempo, sobre a ruína de todos os bancos existentes, ele estabelecerá uma banca única, comanditária de todo o trabalho e de todo o comércio nacional.
Compreende-se que, à primeira vista, um plano de organização tão simples, pelo menos em aparência, possa seduzir a imaginação dos operários mais ávidos de justiça e de igualdade do que de liberdade, e que sejam tolos ao ponto de imaginarem que tanto uma como outra podem existir sem a liberdade, como se para conquistar e para consolidar a justica e a igualdade, se pudesse ter confiança nos outros e principalmente nos governantes, por muito que eles se digam eleitos e controlados pelo povo! Na realidade, isso seria um regime de caserna para o proletariado, em que a massa uniformizada dos trabalhadores e das trabalhadoras despertaria, adormeceria, trabalharia e viveria a toque de caixa. (Carta ao jornal La Liberté. 1872).
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…Nenhum Estado, por mais democráticas que sejam as suas formas, mesmo a república política mais vermelha, popular apenas no sentido desta mentira conhecida sob o nome de representação do povo, está em condições de dar a este o que ele precisa, isto é, a livre organização de seus próprios interesses, de baixo para cima, sem nenhuma ingerência, tutela ou coerção de cima, porque todo Estado, mesmo o mais republicano e mais democrático, mesmo pseudopopular como o Estado imaginado pelo Sr. Marx, não é outra coisa, em sua essência, senão o governo das massas de cima para baixo, com uma minoria intelectual, e por isto mesmo privilegiada, dizendo compreender melhor os verdadeiros interesses do povo, mais do que o próprio povo.
…Assim, todos os governos, e mesmo todos os burgueses, acreditavam que o povo apoiava a burguesia e que bastava que esta se movimentasse ou fizesse um sinal para que todo o povo se levantasse com ela contra o governo. Hoje as coisas são bem diferentes: em todos os países da Europa, a burguesia teme, acima de tudo, a revolução social, e sabe que contra esse perigo, não existe outro refúgio senão o Estado; é por isso que ela quer e exige sempre o Estado o mais forte possível, ou, simplesmente, a ditadura militar; mas, para realizar suas ambições e enganar com mais facilidade o povo, faz questão que esta ditadura seja revestida das formas da representação nacional, que lhe permitam explorar as massas em nome do próprio povo.
Sobre esta ficção da pseudo-representação do povo e sobre o fato bem real do governo das massas populares por um punhado de privilegiados eleitos e até mesmo não eleitos, por multidões votando sob a coação e ignorando por que votam – sobre esta expressão abstrata e fictícia do que é representado como o pensamento e a vontade populares, dos quais o povo real e vivo não possui sequer a mínima idéia –, estão fundadas, em igual medida, a teoria do Estado e a teoria da ditadura denominada revolucionária.
Entre a ditadura revolucionária e a centralização estatista, toda a diferença está nas aparências. No fundo, ambas são apenas uma única e mesma forma de governo da maioria pela minoria, em nome da suposta estupidez da primeira e da pretensa inteligência da segunda. É por isso que uma e outra são, no mesmo grau, revolucionárias, ambas tendo por efeito consolidar, direta e infalivelmente, os privilégios políticos e econômicos da minoria governante e a escravidão econômica e política das massas populares.
Vê-se agora, com clareza, por que os revolucionários doutrinários, cujo objetivo é derrubar os poderes e regimes existentes para fundar, sobre as ruínas destes, sua própria ditadura, nunca foram e jamais serão os inimigos, mas ao contrário, sempre serão os defensores mais ardentes do Estado. Eles só são inimigos dos poderes atuais, porque desejam tomar seu lugar; inimigos das instituições políticas existentes, porque elas tornam impossível sua ditadura; mas, ao mesmo tempo, são os mais calorosos amigos do poder de Estado, sem a manutenção do qual a revolução, após ter libertado de fato as massas populares, retiraria desta minoria pseudorevolucionária toda esperança de atrelá-las a um novo jugo e provê-las de benefícios de suas medidas governamentais.
O que significa: o proletariado organizado como classe dominante? Significa dizer que este estará por inteiro na direção dos negócios públicos? Existem cerca de quarenta milhões de alemães. É possível que esses quarenta milhões façam parte do governo, e todo o povo governando, não haverá governados? Neste caso não haverá governo, não haverá Estado, mas se houver um, haverá governados, haverá escravos. (Estatismo e anarquia. 1873)
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Nunca acreditei que os operários das cidades, mesmo nas condições mais favoráveis, serão algum dia capazes de impor o comunismo ou o coletivismo aos camponeses; e nunca acreditei neste método de trazer o socialismo, porque abomino todo sistema imposto e porque sou um amante sincero e apaixonado da liberdade. Essa falsa ideia e essa esperança mal concebida são destrutivas da liberdade e constituem a falácia fundamental do comunismo autoritário. Pois a imposição da violência, sistematicamente organizada, leva à restituição do princípio da autoridade etorna necessário o Estado e suas camadas privilegiadas. O coletivismo só poderia ser imposto sobre escravos, e esse tipo de coletivismo seria então a negação da humanidade. Em uma comunidade livre, o coletivismo só pode surgir por pressão das circunstâncias, não por imposição de cima,
mas por um movimento livre e espontâneo de baixo, e somente quando as condições de individualismo privilegiado, apoiado ou subsidiado pelo Estado, a política do Estado, os códigos penal e civil, a família jurídica e a lei da herança, forem varridos pela revolução… (Cartas a um francês na crise atual. 1870)
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Se Paris se subleva e triunfa, terá o direito e o dever de proclamar a liquidação completa do
Estado político, jurídico, financeiro e administrativo, a bancarrota pública e privada, a destruição
de todas as funções, de todos os serviços, de todas as forças do Estado, o incêndio ou o fogo da alegria de todos os papéis e atos públicos ou privados, a fim de que os trabalhadores reunidos em associações, havendo tomado todos os instrumentos de trabalho, capitais de qualquer espécie e edifícios, fiquem armados e organizados por ruas e por quarteirões. Formarão a federação revolucionária de todos os quarteirões, a comuna directiva. E esta comuna terá o dever de declarar que não se arroga o direito de governar e de organizar a França, mas que chama o povo de todas as comunas, tanto da França como do que se chamava até agora o estrangeiro, a seguir o seu exemplo, a fazer, cada uma na sua região, uma revolução tão radical, tão destrutiva para o Estado, para o direito jurídico e para a propriedade privilegiada. Ela convidará estas comunas, francesas e estrangeiras, depois de ter feito esta revolução, a virem se federar com ela, quer em Paris, quer em qualquer outro ponto que se quiser, aonde enviarão os seus delegados para fazer uma organização comum dos serviços e das relações de produção e de troca, organização necessária para estabelecer à carta de igualdade, base de toda a liberdade, carta totalmente negativa pelo seu caráter, separando bem o que deve ser abolido presentemente do que são às formas positivas da vida local, que só podem ser criadas pela prática viva de cada localidade. Ao mesmo tempo organizará uma defesa comum contra os inimigos da Revolução, assim como a propaganda ativa da Revolução e da solidariedade prática revolucionária, com os amigos de todos os países contra os inimigos de todos os países.
Numa palavra, a revolução deve estar e deve surgir por toda a parte, independentemente do ponto central, que deve ser a sua expressão, o seu produto, e não a sua fonte, a sua direcção e a sua causa. (Carta a Albert Richard. 1870)

