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DEFENDER A REVOLUÇÃO EM ROJAVA! -Nota da Organização Têkoşîna Anarşîst

Com a finalidade de fortalecer a difusão sobre os acontecimentos mais recentes em Rojava, a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) divulga a tradução ao português da última nota publicada pela Têkoşîna Anarşîst, organização revolucionária anarquista com atuação em Rojava.

Desde o início de janeiro de 2026, grupos armados ligados ao Governo de Transição Sírio (STG)1 iniciaram uma ofensiva massiva contra posições no Nordeste da Síria, região também conhecida como Rojava.

O que está acontecendo?

Nas ruas de Rojava, vida e resistência são duas flores que desabrocham juntas. Enquanto escrevemos estas linhas, metade das nossas amigas e amigos está na linha de frente, a outra metade nas cidades, construindo barricadas e se preparando para o que está por vir. Faz frio, mas em cada esquina há um bule fumegante de chá preto com toneladas de açúcar, pronto para aquecer as mãos e a alma. O clima geral é de grande prontidão, com jovens camaradas patrulhando as ruas enquanto seus irmãos e irmãs mais velhos mantêm as linhas de frente. Amigas e amigos conversam abertamente e discutem os acontecimentos ao lado de aquecedores a diesel ou fogueiras improvisadas nas ruas, caminhando por toda parte com seus equipamentos e armas prontos. Os últimos dias têm sido de uma sensação de baixa moral, mas que agora vem subindo e as pessoas estão animadas para enfrentar os invasores. O inimigo está chegando, mas todos sabem o que fazer. Estamos nos preparando para isso há muito tempo.

Sim, a guerra se aproxima mais uma vez na Síria. E sim, para o povo curdo, é mais uma vez uma guerra por sua existência. Aqueles que atacam a revolução hoje vestem novos uniformes e lutam sob bandeiras diferentes, mas representam as mesmas ideias que o Estado Islâmico (ISIS)2 já tentou impor há 10 anos. Eles serão recebidos pelo mesmo espírito de resistência que já libertou Kobane, que já derrotou o califado do ISIS, que já libertou cada centímetro de terra que eles tentaram conquistar. E no final, dançaremos.

Sabemos que o mundo não é o mesmo de dez anos atrás. A resposta que podemos dar também não será a mesma. Lamentamos que a guerra esteja se tornando uma realidade para mais pessoas a cada ano, e que a guerra na Síria não receba a mesma atenção que recebeu antes. Ainda assim, isso não pode ser motivo para não lutarmos pelo que é certo. Rojava está mostrando que outro mundo é possível, que outra forma de organizar a sociedade pode surgir mesmo das ruínas dos tempos mais sombrios. Agora, mais do que nunca, temos que defendê-la.

O que aconteceu?

Os acordos para uma transição pacífica assinados por Ahmed al-Sharaa e Mazlum Abdi em março de 2025, logo após o colapso do regime de al-Assad, não resultaram em soluções práticas para uma Síria democrática. Hoje, as tensões estão mais acirradas do que nunca, uma nova guerra está sendo travada para aniquilar a revolução. O STG, com total apoio do Estado turco e seus mercenários, está lançando um ataque brutal contra a autoadministração do Nordeste da Síria.

Nos primeiros dias de janeiro, os bairros históricos curdos de Aleppo foram os primeiros a sofrer os ataques das forças jihadistas que agora governam Damasco. As Forças Democráticas Sírias (SDF)3, buscando uma solução negociada para evitar um grande derramamento de sangue, concordaram com um cessar-fogo e se retiraram de Aleppo e de outras áreas próximas. Ainda havia esperança de que as negociações pudessem impedir o retorno à guerra, mas as forças do Governo de Transição Sírio continuaram seus ataques, emboscando as forças das SDF em retirada e atacando além das linhas acordadas no cessar-fogo.

Em 19 de janeiro, Mazlum Abdi, comandante em chefe das SDF, realizou uma reunião com Ahmed al-Sharaa e outros representantes do Governo de Transição Sírio. Encorajados pela retirada parcial das SDF e pelos avanços das forças alinhadas ao governo, eles exigiram a rendição completa das SDF. Mazlum Abdi declarou que tais exigências são inaceitáveis, que as SDF não desistirão dos avanços da Revolução e não esquecerão os enormes sacrifícios já feitos para chegar a este ponto. Esta revolução foi construída sobre a resistência contra a opressão, construindo uma vida livre não apenas para o povo curdo, mas para os povos de toda a Síria e de todo o Oriente Médio. Os povos do Nordeste da Síria querem paz e democracia, mas estão sempre prontos para se levantar e lutar contra a opressão.

O que acontecerá?

Em um mundo que lentamente desliza para a loucura do desespero, descendo a cada ano rumo ao que parece ser uma inevitável terceira guerra mundial de dimensões inimagináveis, é responsabilidade de todo revolucionário defender as conquistas e lições de Rojava. O Movimento de Libertação Curdo provou ser capaz de construir um futuro onde a luta armada e a guerra revolucionária popular crescem lado a lado com a libertação das mulheres e os valores ecológicos. Comunas, cooperativas e academias (centros de educação popular) são a espinha dorsal de tal revolução, escapando da lógica da centralização e do monopólio do capitalismo e do Estado-nação.

Rojava lutará. A revolução fará tudo o que puder para se defender. A luta continuará. As batalhas de hoje serão o terreno onde as revoluções de amanhã florescerão. As camaradas que caírem nessas batalhas serão a inspiração para novas gerações de revolucionárias. Não há fim para a história, porque a história é o que fazemos com cada decisão que tomamos, cada ação que realizamos, cada passo que damos. Porque a vitória ou a derrota nunca é o fim de nada, sempre há um depois. O que importa é o quanto podemos aprender com isso, o quanto podemos melhorar e continuar crescendo.

Nós, como anarquistas, como internacionalistas que lutamos ao lado de nossas camaradas curdas, árabes, assírias e armênias durante todos esses anos, continuaremos a ocupar nosso lugar nas barricadas de Rojava. Pertencemos a esta revolução, assim como esta revolução nos pertence, porque a solidariedade internacional e o apoio mútuo não são apenas um slogan aqui, são uma prática diária. Conclamamos todas as forças revolucionárias a também ocuparem seu lugar na resistência, para defender esta revolução, para continuar lutando para construir o mundo em que queremos viver. Porque a revolução não é um evento, é um processo. E temos que lutar por ela.

Berxwedan jiyane e! – Resistência é vida!

Biji Soresa Rojava! – Vida longa à revolução de Rojava!

Têkoşîna Anarşîst, Janeiro de 2026

1 A sigla STG faz referência ao termo usado em inglês: Syrian Transitional Government.

2 A sigla ISIS faz referência ao termo usado em inglês: Islamic State of Iraq and Syria.

3 SDF faz referência às Forças Democráticas Sírias, ou Syrian Democratic Forces no termo usado em inglês.