Conjuntura

ANÁLISE DE CONJUNTURA – CAB – SETEMBRO/2026

Somos partidárias de um programa de lutas que não troque sua independência de classe por cargos, favores ou razões governistas. Como pequena, mas resoluta força de enfrentamento ao lado das oprimidas e exploradas, continuaremos como sempre nas lutas que vêm de baixo, fora do governo e das colaborações com os patrões. E como pauta para essa conjuntura que entramos, queremos construir soluções práticas com quem luta, sem perder nossa intenção libertária e socialista, com o sentimento de que nada podemos esperar que não seja do próprio povo.

CRISE DA DEMOCRACIA BURGUESA

A cena política no Brasil tem uma ferida aberta. Nós, enquanto anarquistas, temos que botar o dedo nessa ferida e instigar outro imaginário político, sustentando pautas contra o sistema instituído. A democracia burguesa, como melhor forma de mediação do conflito de classes, tem apresentado sérios indícios de seu esgotamento no atual estágio do capitalismo em crise. Os sintomas estão para todas observarem: os acenos aos golpes brandos ou autoritários que buscam um reordenamento institucional para que se possa por abaixo qualquer resquício de direito conquistado, comprometendo o Estado a uma política de austeridade que aperte o cinto das classes populares e o deixe folgado para as elites rentistas parasitárias deste país. O ajuste fiscal, que volta e meia muda de nome (teto de gastos, arcabouço fiscal, novo arcabouço), mantém o cerne da limitação de gastos sociais e deflagra um “salve-se quem puder” numa economia periférica agrário-exportadora, em que a maior parcela da classe está no setor de serviços e na informalidade/MEI.

O esgotamento da Nova Republica, seu fim, transparece na incapacidade do sistema partidário-oligárquico de não dar mais conta das coalizões e conciliação de classes, de um reformismo já inexistente que conduzia a máquina do Estado ao arrocho mediado sobre a população, pois se sabia, em tempos recentes, a força que os movimentos sociais tinham e deixaram de ter sob a política de conciliação, nefasta para a educação política desses movimentos. A lição que fica desse curto período de redemocratização em que ampla maioria da esquerda optou pelas eleições é que as soluções de nossos problemas não virão pelas urnas.

Os casos de Daniel Vorcaro, a ligação umbilical de deputados da ALERJ ao crime organizado, a lavagem de dinheiro para o tráfico da Faria Lima, a existência e devassa das Emendas Parlamentares entre outros episódios recentes, colocam a nu aquilo que já sabemos: a democracia liberal representativa é totalmente subserviente aos interesses dos mais ricos e não há nada que possa fazer ao ocupar os espaços institucionais, senão comer farelo junto a estes porcos.

Portanto, para se manter de pé, a república em ruínas se aprofunda em seu caráter policialesco, de corpos e mentes, através não apenas das forças policiais e jurídicas, que vêm aumentando sua opressão no campo e na cidade, haja vista o aumento de assassinatos de lideranças e reintegrações, mas também as igrejas neopentecostais e milicias a serviço da ordem, dificultando a agência das classes populares. O fator policial desse Estado tem relação direta com o masculinismo que tem tomado a mente da juventude por meio das redes sociais, buscando justificar o mal-estar que subjetivamente este sistema nos causa, promovendo todo tipo de teorias misóginas que acarretam nas altas taxas de feminicídio e violência contra as mulheres cis e a população trans e travesti. Isso não é mero acaso, é elemento constitutivo do avanço do Estado policial necessário para a continuidade da agenda neoliberal que aponta saídas individualistas (empreendedorismo, bet, influencer) que corroem o tecido social baseado na solidariedade de classe, eliminando a esperança de um outro futuro. Essa violência entre as de baixo, promovida por um cenário vendido de que não há futuro para todas, objetiva a desarticulação, pelo medo, da auto-organização popular que tanto construímos nos tempos recentes;

IMPERIALISMOS E INTERVENÇÃO

A conjuntura brasileira se torna perigosa ao entender o contexto internacional em que está inserida. Em profunda decadência e perda de hegemonia política e econômica, os Estados Unidos abandonam a hipocrisia de seus discursos sobre multilateralismo, diplomacia e respeito ao direito internacional, se retirando de acordos internacionais e ignorando as decisões tomadas na ONU, esta última em frangalhos, mostrando suas garras aos seus concorrentes. Essas garras estão fincadas na América Latina com a nova estratégia de segurança nacional que reedita a Doutrina Monroe, política imperialista sobre o nosso continente que visa o saque de nossas riquezas naturais. São múltiplas as estratégias de intervenção que temos observado até o momento. A primeira é a intervenção nos processos eleitorais com apoio financeiro e informacional da extrema-direita nos países, vide recentemente o Peru, mas também com as ameaças de tarifaço, que buscam agitar as burguesias destes países a se posicionarem alinhadas ao imperialismo. Contudo, não há mais amarras para a intervenção direta imperialista dos EUA. De maneira inédita forças estrangeiras sequestraram o presidente Nicolas Maduro, com interesse na rapinagem do petróleo venezuelano para a sustentação de suas guerras. Outra narrativa que busca justificar a intervenção em solo brasileiro vem se criando em torno da transformação das organizações do narcotráfico em organizações terroristas, abrindo precedentes legais para sua intervenção em solo nacional, ao que sabemos seus reais motivos: subjugação dos insubordinados, principalmente o povo organizado nos movimentos sociais e o butim de matéria-prima essenciais para as novas tecnologias. 

Portanto, a questão central é ambiental, que passa pela defesa da natureza e da população que vive nas regiões de sacrifício. As áreas de fronteira do capital, como no caso das Amazônias, Pantanal, MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), assim como os novos códigos minerário, florestal e ambiental, se inscrevem na destruição para o financiamento das guerras e garantia de lucro. Tudo isto intensifica as mudanças climáticas, que recaem especialmente sobre  as oprimidas e exploradas desta terra de várias formas, como desertificação do Nordeste, queimadas no Pantanal, chuvas torrenciais, deslizamentos e ventanias no Sul e Sudeste.

Em resumo, a intervenção dos EUA visa garantir não só a continuidade do neoliberalismo como razão econômica e política, aprofundando a superexploração, mas abrir a porteira com o entreguismo tupiniquim e dar de bandeja os recursos estratégicos para o centro do capital na corrida armamentista global.

CENÁRIO ELEITORAL

O cenário eleitoral que se apresenta é a vitória da quarta e última edição de Lula, sem deixar qualquer tipo de legado estrutural, apenas migalhas que podem e serão retiradas sem rodeios quando puderem. Seu legado real foi a docilização dos movimentos sociais e sindicatos que se voltaram para o interesse do partido na perpetuação da gerência do Estado com todas as suas benesses, usando a luta popular como moeda de troca nas mesas de negociação com as elites. Onde se viam marchas, ocupações, queda de cercas, enfretamentos e esperança, hoje restaram mobilizações nas redes, receosos com qualquer fantasma que se pareça com 2013, como vemos, por exemplo, na condução da luta contra a escala 6×1 pelo VAT, ao qual disputamos seus rumos.

Durante o processo eleitoral, seguem também os inabaláveis 30% da oposição ao Lula que se apresentam como bolsonaristas, conservadores, reacionários, fascistas e liberais em conjunto sob a bandeira da negação do governo petista. Esses que simulam uma revolta contra o sistema, buscam, na verdade, seu aprofundamento para terem a possibilidade de acumular mais riquezas, ou saírem da situação de penúria em que se encontram, já que nada parece mudar e tudo fica mais difícil, acelerando o processo de desagregação social em curso.

As demais estratégias em torno das eleições que buscam mobilizar para o voto na urna, centram suas perspectivas em um futuro que nunca chega, iludem as trabalhadoras fazendo crer que alguém de sua classe, ao sentar-se na cadeira da presidência ou parlamento, irá mudar a situação, quando reiteradamente a história que observamos é outra.

Nós, anarquistas, socialistas libertárias, puxamos a corda desde abaixo para a esquerda, fora do jogo eleitoreiro, criando organismos e movimentos que tenham capacidade de arrancar direitos, com perspectivas de disputar o poder contra os poderosos a partir da luta. É desse exercício contínuo e duradouro, que é a luta de classes, que buscamos estimular um povo forte que não deposita nem um pingo de esperança na democracia burguesa.

Por isso, dizemos em alto bom som: SÓ A LUTA MUDA A VIDA, só movimentos sociais autônomos e combativos é que podem sair dessa sinuca que nos colocaram. As vitórias e respostas nesse sentido vêm sendo dadas pelos povos originários que desmascaram os projetos de destruição da natureza disfarçados de desenvolvimento. Essas lutas demonstram como a ação direta e a independência conseguem superar as tentativas de captura das vitórias políticas, sem se deixar seduzir pelas representatividades que tentam manobrar os movimentos. 

Nossa estratégia é a mais realista possível diante desse contexto sem saída institucional e num ambiente cultural individualista e conservador que vivemos. Nossa aposta é retomar as ruas, os sindicatos, os movimentos, criar organização onde não há para fazer o enfrentamento inevitável para retomarmos as mobilizações a partir dos nossos interesses locais e nacionais. Não nos cabe mais ilusão,

Só a Luta Muda a Vida!!

Coordenação Anarquista Brasileira

Setembro, 2026