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COMO NOS ORGANIZAMOS E LUTAMOS PARA ALÉM DAS ELEIÇÕES?

Essa foi a pergunta que abriu nossa série de conteúdos que publicamos nas redes sociais durante a conjuntura eleitoral de 2026. Aqui vamos fazer um compilado de alguns dos textos que foram publicados.

A luta que realmente transforma as coisas pulsa nas dores, nos sonhos e nas necessidades cotidianas da nossa classe — e isso não cabe em discursos de quatro em quatro anos.

Quem muda a vida do povo oprimido é a mobilização e organização popular construída na base e no dia a dia. Nossa política começa antes do período eleitoral e continua firme depois que ele acaba. Ela continua nos territórios, nos locais de estudo e de trabalho.

Nesta matéria, vamos destrinchar nossa posição através de conceitos fundamentais que orientam a nossa atuação política, falaremos sobre: o anarquismo da CAB, política, poder popular, socialismo libertário, programa mínimo, campo de unidade tática, ação direta, organizações de base e independência de classe. Fica nosso convite para que acompanhem os próximos conteúdos e somem nessa construção e debate com a gente.

Anarquismo não é ausência de organização

O Anarquismo não é ausência de organização. É a organização levada ao seu nível mais sério e profundo — nascida de baixo pra cima. O mito de que o anarquismo é bagunça, caos ou falta de regras foi inventado pela burguesia e pelos autoritários para desmobilizar a nossa classe e apagar a nossa história de combate.

A história, por si só, prova o contrário. A lógica da desorganização cai por terra toda vez que olhamos para as maiores experiências revolucionárias da humanidade, onde os anarquistas em muitos casos estiveram na linha de frente dos processos mais organizados de lutas

A experiência da fAu (Federação Anarquista Uruguaia) foi de grande importância para a formação da nossa corrente política, mas é a partir de nosso país, com suas dimensões continentais e múltiplas culturas, que precisamos fomentar as lutas e dar respostas às demandas complexas de nosso povo.

Para nós, a organização política precisa ser rigorosa. Atuamos de forma coordenada para ser fermento dentro da massa: militamos no cotidiano sem impor ordens aos movimentos populares, mas disputando os rumos da luta contra a burocracia e a conciliação.

Não partimos da eleição para definir o nosso projeto de transformação social. Ele segue de pé antes, durante e depois de qualquer urna, se construindo no dia a dia das lutas populares, para avançar para a sociedade que queremos.

Você está satisfeito com a sociedade em que vivemos? O que você sonha que deveria ser diferente na sociedade?

A liberdade exige compromisso

Reduzir o anarquismo à bagunça é uma tática intencional de quem precisa manter o povo passivo. A nossa corrente, o anarquismo da CAB, resgata a necessidade histórica da organização em dois níveis: a organização política anarquista, que une os militantes em torno de uma mesma estratégia, e a organização de massas, construída pela base nos movimentos sociais.

Essa concepção ganhou corpo na América Latina com a experiência de combate da fAu no Uruguai, enfrentando a repressão e provando que a liberdade exige compromisso, método e disciplina coletiva. Somos contrários ao centralismo de cúpulas que decidem pelo povo, mas rejeitamos também o espontaneísmo que esvazia a força da nossa classe. É a partir dessa organização sólida que construímos a nossa inserção social.

Socialismo libertário – Qual sociedade queremos construir?

Uma sociedade sem Estado não significa uma sociedade sem organização. O Socialismo Libertário defende que a organização seja decidida por quem vive dela — sem patrão, sem governo e sem intermediários.

Se o Estado sumir, quem cuida da saúde, da educação, do campo e das fábricas? A estrutura e o trabalho continuam. O que muda radicalmente é quem detém a propriedade, a gestão e as decisões.

Para nós, ou o socialismo é com liberdade ou não é socialismo. Alcançar esse horizonte exige destruir o modelo capitalista de mundo — um sistema que mercantiliza as nossas vidas, se sustenta na nossa miséria e nos impõe modos de trabalhar, formas de fazer e formas de não fazer política.

Uma nova sociedade exige a socialização integral dos meios de produção e do poder. Significa arrancar a riqueza acumulada e o controle das mãos de patrões, empresários e governos, fazendo com que a gestão seja exercida de forma coletiva desde o local de trabalho, de moradia e de educação.

Isso não vai acontecer por ordem do destino ou de forma espontânea. O socialismo libertário só nasce da construção sólida de militância, lutas, organização de base e resistência cotidiana do povo oprimido.

Sem concessão. Sem enrolação. Só a luta muda a vida. Você consegue imaginar a sua classe decidindo tudo coletivamente, sem patrão e sem governo? Mas então, se a política não começa nem termina nas urnas, onde, pra você, deveria começar?

Nossa liberdade não cabe nas urnas

Nós, anarquistas da CAB, trazemos uma certeza histórica: ou o socialismo é com liberdade, ou não é socialismo. O socialismo libertário é o projeto revolucionário que combina a propriedade coletiva da riqueza com a destruição de toda forma de hierarquia e dominação.

Para que isso aconteça, precisamos destruir o modelo capitalista e arrancar o controle das mãos de patrões, empresários e governos. Essa mudança não cai do céu: exige militância sólida, organização de base e resistência ativa nos locais de trabalho, moradia e educação. É na luta do dia a dia que acumulamos a força social necessária para construir a nossa liberdade, muito além de qualquer urna.

O que é ser militante hoje?

Você vota a cada tantos anos. Mas com quem e como você luta todo dia? Nas eleições, perguntam em quem você vai votar. Depois que a urna fecha, essa pergunta some. A nossa pergunta, não.

Para muita gente, política virou sinônimo de voto — uma vez a cada tantos anos, e ponto. Mas política se faz todo dia: no trabalho, no local de moradia, na saúde, na educação, no sindicato e no território onde você mora. Tudo isso é prática política viva.

A gente desconfia de política que só aparece a cada dois anos. Desconfie também de quem promete falar por você em vez de construir com você.

Política e militância, para nós, é aquilo que continua depois que a propaganda eleitoral acaba. E é aí que a pergunta desta série ganha corpo: como vamos nos organizar para além disso, se não pela base, se não com o esforço coletivo diário?

Programa mínimo

Lutar por uma outra sociedade não significa cruzar os braços diante das dores e anseios que sofremos hoje. O programa mínimo não é um conceito abstrato de gaveta. É onde encontramos as pautas mais sentidas e urgentes da vida da nossa classe, aquelas que dão razão e força pra nossa luta de todos os dias.

É nesse cotidiano que disputamos as políticas públicas. Exigir saúde, educação, moradia, terra, vida digna, não é validar o Estado, mas impor nossas necessidades e reaver a riqueza que o povo produz e nos é confiscada.

Uma reivindicação imediata não é revolucionária porque é justa; uma conquista não é reformista porque é parcial. Lutar por direitos só vira reformismo quando o direito é tratado como meta final.

Para nós está em jogo a reivindicação com organização, estratégia e acumulação de forças para alcançar a sociedade que queremos viver, ou que queremos para as futuras gerações.

Uma luta que conquista melhorias concretas alivia a dor e angústias do nosso povo no presente. Mas, além disso, pode fortalecer a organização popular, a autonomia, a consciência coletiva e a capacidade de decisão de quem luta, abrindo o caminho para transformações mais profundas.

Direto ao ponto e sem conciliação: só a luta muda a vida. Na sua realidade hoje, qual pauta mais urgente precisa virar mobilização na sua comunidade?

Para nós, anarquistas da CAB, o programa mínimo bota a teoria no chão da realidade. Entendemos que direitos e políticas públicas não são presentes de governantes, mas conquistas arrancadas sob o fogo da mobilização popular.

A disputa por direitos é o combustível diário para pavimentar o futuro que queremos construir. Enquanto o reformismo trata o direito como ponto de chegada, para nós ele é um momento de luta e reivindicação; nosso ponto de chegada é uma sociedade socialista e libertária. Sob a gestão direta das nossas frentes e inserção social de luta, geramos na prática o germe da autogestão e da democracia de base para destruir o capitalismo e o Estado — muito além de fazer gestão de falsa democracia nas urnas.

Como agimos no movimento? União tática no campo combativo à esquerda

Não disputamos a estrutura do Estado, nem por tática. Disputamos e defendemos a organização popular permanente. O trabalho de base. A construção de um povo forte — com unidade tática, para que ninguém puxe a corda da luta na direção contrária.

Isso não significa que não temos momentos de luta em comum, por uma pauta de urgência, com quem pensa diferente da gente. Atuamos com o campo combativo e com a esquerda que se alinha a esse princípio de organização e luta permanente. Nossa ideia de unidade está num terreno comum de ação, sem transformar esse terreno em identidade política permanente.

As eleições, historicamente, podem afastar o povo do seu próprio poder de auto-organização — pois muitas vezes intentam sugar as forças das ruas pras candidaturas e, assim, enfraquecem os organismos coletivos, determinando o conjunto da luta popular.

A gente não torce pela lógica do quanto pior, melhor. Mas o tamanho do sofrimento de quem é oprimido não se resolve trocando quem senta na cadeira — se resolve com a força do enfrentamento de base, seja qual for o governo.

A vitalidade da luta diária nos locais de base não pode ser substituída por chantagem para eleger candidatos. Só a luta muda a vida. Quando você luta por uma pauta em comum com quem pensa diferente de você, onde fica o seu limite? Será que a unidade para lutar precisa se transformar em subordinação?

A pergunta que mais aparece pra gente em período eleitoral é: vota ou não vota? Não é essa a questão que queremos responder. Queremos retomar a pergunta que abriu essa série inteira: como vamos nos organizar e lutar para além das eleições? A força que transforma a realidade não nasce na urna. Nasce todos os dias, nos locais onde o povo já está organizado e resiste. É disso que a gente não abre mão de defender.

Ação direta – O método que devolve o poder a quem luta

Disseram que, pra mudar a realidade, você precisa de um representante. A nossa história prova o oposto: o povo só avança quando age por conta própria.

No anarquismo da CAB, a ação direta não é um ato isolado ou espontâneo. Ela é o método de luta onde a classe oprimida assume o protagonismo total, decidindo e executando suas pautas sem intermediários, sem políticos e sem patrões.

Não aceitamos as estruturas de dominação do Estado burguês. Assim, a ação direta é a nossa classe operando fora do jogo eleitoral: é a greve que paralisa a produção, o piquete que tranca a avenida e a ocupação que garante o teto e a terra.

O reformismo ensina a pedir por favor em gabinetes. A ação direta ensina a impor. Quando a classe trabalhadora usa a força da própria organização para arrancar um direito, ela destrói a passividade e quebra a engrenagem do opressor.

Cada barricada erguida, cada chão de fábrica parado e cada retomada comunitária alivia as angústias do presente. Esse método nos educa na prática, mostrando que somos plenamente capazes de gerir a vida de forma coletiva.

Direto ao ponto e sem conciliação: só a luta muda a vida. No seu local de trabalho, estudo ou moradia, qual dor sufocada hoje só vai ser resolvida quando o povo recorrer à ação direta?

Para nós, a ação direta é o coração da nossa inserção social e das nossas frentes de atuação. Rejeitamos frontalmente a ilusão de que a libertação virá assinada por decretos de governantes de boa vontade ou gerida na falsa democracia das urnas. A história do movimento operário sempre foi escrita com greves, piquetes e ocupações de dentes cerrados — métodos legítimos onde o povo exerce o poder real.

Ação direta é agir com a liberdade nas mãos, destruindo a tutela do Estado e a exploração do capital a cada palmo de território conquistado. É no calor desse embate cotidiano que acumulamos força social, forjando o germe da autogestão e pavimentando o caminho rumo ao socialismo libertário.