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O QUE NÃO ESTAMOS FAZENDO? – CARTA DE OPINIÃO (FAS) – 52 ANOS DO GOLPE MILITAR NO CHILE

O dia 11 de setembro de 1973 marca a data em que o Chile sofreu um golpe militar. 52 anos depois, entre as ações realizadas para fazer memória daquele dia e manter viva a história entre as novas gerações, a Federação Anarquista de Santiago (FAS) publicou uma carta de opinião que endereça a conjuntura política atual no Chile. Em meio a um exercício de olhar para o passado e buscar aprendizados pertinentes para o presente, que permitam construir um futuro diferente e revolucionário, a FAS oferece uma reflexão crítica que nos parece útil também para pensar a conjuntura no Brasil. 

Assim, como um esforço de aproximação entre temas debatidos nos diversos territórios latino-americanos, a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) reproduz a carta de opinião da FAS traduzida ao português. De forma oportuna, ao considerar que em 11 de setembro de 2025 houve no Brasil a condenação do genocida Jair Bolsonaro e seus comparsas, o texto nos conduz a refletir sobre períodos em que a democracia burguesa se coloca como alternativa mais palatável. Ao mesmo tempo, a leitura nos alerta de que as instituições da democracia burguesa e os arroubos autoritários de parcelas da elite política não passam de duas faces de uma mesma moeda, cujo objetivo é coincidente: manter no poder uma classe dominante de patrões e empresários as custas do povo oprimido, que vê suas condições de vida piorarem independente de quem ocupe as cadeiras da corja institucional do Estado em sua condução do capital.

O QUE NÃO ESTAMOS FAZENDO? Uma importante pergunta após 52 anos do golpe militar.

Em tempos como esses, é difícil sermos autocríticos e questionarmos o que não estamos fazendo. Esse exercício da autocrítica parece ser apenas autoflagelante, com sua única conquista sendo desanimar as companheiras organizadas, ou até desmotivar algumas, mas acreditamos que estas reflexões são necessárias para avançarmos naquilo em que acreditamos: uma vida digna para nossa classe, e quem não se submete a este exercício avança apenas para a autocomplacência.

Comecemos então com o que estamos fazendo.

Estamos permanentemente atrás da realidade, a acompanhando e diagnosticando, o que, sem dúvida, é fundamental, mas não suficiente. A realidade global é um cenário em que os paradigmas impostos na segunda metade do século XX estão em plena transição. Novas ordens mundiais estão surgindo, as democracias liberais em sua natureza capitalista estão dando lugar a estruturas fascistas, conservadoras e autoritárias. No entanto, isso não significa que os mecanismos de dominação se transformem necessariamente. A brutalidade do genocídio levado a cabo pelo Estado israelita, com a cumplicidade direta dos Estados Unidos, demonstra, em nossa opinião, que a guerra será uma ferramenta que o capitalismo e o patriarcado continuarão a usar, o que revela pelo menos duas coisas: o retrocesso civilizacional das sociedades a nível global e a cumplicidade passiva do resto dos detentores do poder em diferentes territórios e escalas do mundo. O reordenamento mundial, essa transição de que falamos, terá como marca o genocídio da população palestina em Gaza, e o mundo terá que conviver com isso.

A visão global torna inevitável que olhemos para a nossa realidade próxima. Em um exercício de síntese diagnóstica, talvez a afirmação que consideramos mais pertinente seja que a democracia (neo)liberal em que vivemos não está em crise, como muitos dizem, mas sim em processo de completar sua missão capitalista, algo refletido em diferentes dinâmicas políticas, sociais e econômicas que se entrelaçam permanentemente. [No Chile], após os processos de restituição, estabeleceu-se uma restituição da ordem de dominação que foi questionada em parte pela revolta de 2019 e seus processos anteriores, o que teve que ser necessariamente acompanhado pela implementação aguda de uma força repressiva estatal, uma dinâmica social que, por trás da cortina da segurança social, tudo o que conseguiu foi assassinar e injetar terror na população e minar a organização social, além de permitir o retorno da naturalização de discursos de ódio, patriarcais e negacionistas. Observamos com atenção e estamos em alerta permanente, pois uma expressão de tudo isso é a disputa aberta pelos espaços comunitários recuperados e ocupados por organizações sociais, onde as companheiras resistem ao ataque do Estado e das empresas. 

Identificamos também como a dinâmica política convencional produz um espetáculo midiático, expresso, por exemplo, na disputa eleitoral ou em alguma manobra parlamentar, que pretende adormecer o conflito de classes. [No Chile], essa falsa dicotomia entre “esquerda” e “direita” é apenas a face populista do partido da ordem, com a qual pretendem nos fazer acreditar que existem diferenças abissais entre essas facções, sendo o melhor exemplo na conjuntura atual a suposta distância política entre a candidata do progressismo e da social-democracia, Jara, em relação a outros personagens nefastos como Kaiser, Kast e Mathei. Na prática, porém, todos esses conglomerados apostaram em um projeto de classe, a reprodução de um sistema de dominação capitalista e patriarcal que se baseia em ideias como xenofobia, individualismo, racismo, autoritarismo, etc. 

O modelo em que vivemos tem uma máquina lubrificada para continuar reproduzindo o capital, o que, amparado pela legalidade burguesa, nos mantém submersos em um mundo de consumo, financeirização, exploração laboral e devastação ecológica (a esse respeito, basta ver como o partido da ordem legisla sem maior problema a lei de permissões, o que potencializará a devastação de nossos corpos e territórios).

Entretanto, parece relevante enfatizar a outra economia que esta democracia promove diariamente, que é a do crime organizado. A fachada do Estado de direito e a batalha contra o crime organizado está aos pedaços. A democracia liberal, enquanto Estado e capital, opera num mercado legal e num mercado ilegal (falando nos seus próprios termos). Nos dizem que são contra todo o crime organizado, que condenam o tráfico de drogas, mas o que vemos diariamente nas nossas comunidades é diferente. Embora o Estado se apresente publicamente como um opositor ferrenho do crime organizado, a realidade mostra que o próprio modelo de consumo que promove, acoplado às diversas práticas de corrupção nos territórios, geram vínculos funcionais com essas estruturas ilícitas. Em muitos casos, longe de enfrentá-las, essas dinâmicas acabam transformando o Estado em seu melhor aliado, pois permitem a instalação de mecanismos de controle social que servem para hostilizar e intimidar aqueles que se organizam e lutam por uma vida digna. Basta olhar para o que aconteceu com o caso do “rei de Meigs”, caso emblemático da cumplicidade entre o empresariado, o Estado corrupto, o crime organizado e o mundo do espetáculo televisivo. A violência, o consumo, a corrupção estatal e policial são o centro do modelo de livre mercado protegido por esta democracia liberal. 

E agora, o que não estamos fazendo?

A resposta mais simples que podemos dar é que não estamos oferecendo uma alternativa organizacional que faça sentido para a maioria da população. O refluxo social e organizacional é tremendo, e aquelas de nós que continuamos organizadas estamos presas na difícil tarefa de reconfigurar um cenário de lutas sociais favoráveis. O mais provável é que, na prática, esteja se construindo uma militância que promova espaços organizacionais, mas com uma série de limitações e dificuldades. Nesse sentido, acreditamos que faltam certos impulsos, que tentaremos descrever a seguir.

O período político nos questiona: estamos preparados para as disputas políticas que se aproximam? No momento, o mais provável é que a ala mais à direita do partido da ordem assuma a administração do Estado pelos próximos quatro anos, o que implicará que o progressismo e a social-democracia voltarão às ruas, tentando conduzir qualquer expressão do movimento social, questão que, no cenário de que mantenham a continuidade do governo, continuarão sendo um obstáculo à luta de classes, como têm feito até agora. Nesse sentido, propomos que as organizações que se posicionam do lado revolucionário desenvolvam planos de luta com o objetivo de criar um povo forte, o que implica retomar e ser parte ativa das lutas reivindicativas. É inevitável a rearticulação do movimento dos moradores em luta por moradia e habitação popular, que coloque à frente um horizonte de confronto contra o Estado burguês e o empresariado representado pela câmara chilena da construção. Por sua vez, a luta das trabalhadoras e trabalhadores não pode continuar sendo consumida pela lógica clientelista ou caudilhista de certos dirigentes. Os sindicatos devem se levantar em luta, com a necessidade imperiosa de aproximar a ideia da sindicalização às trabalhadoras e trabalhadores que até agora acreditam que a melhor forma de resolver seus problemas é individualmente. A capacidade militante deve se voltar para a criação de espaços de luta e organização, evitando o isolamento em ações identitárias, onde cada demanda ao Estado e aos patrões seja feita de forma confrontadora e política, evitando cair em tecnicismos, pois a disputa política sempre está à frente da disputa técnica. 

Não é apenas fundamental lutar contra o reformismo e seus cantos de sereia, já que o fascismo avança a cada dia, constrói estruturas políticas e se configura como um projeto ideológico que faz sentido para parte da população. Diante disso, torna-se fundamental a batalha das ideias, onde a agitação e a propaganda se tornam transcendentais. As ideias que acompanham nossa construção histórica de luta devem ser acompanhadas por uma reinterpretação ou uma reimaginação do revolucionário. A revolução política e social precisa voltar a ser uma ideia possível, uma ideia para impregnar uma vida diferente, uma vida digna. Contudo, a disputa de ideias não será suficiente neste período, a menos que consigamos que elas sejam construídas a partir das bases sociais, ou seja, o protagonismo popular na criação e fortalecimento das organizações de base são os chamados a produzir e reproduzir os novos imaginários da revolução.

A partir dessas premissas é possível identificar nossas falhas e definir, como anarquistas, de que forma avançamos. O apelo é para criar uma Organização Política Anarquista, onde a unidade tática e ideológica sejam a base de uma estratégia de ruptura revolucionária que vise a criação de uma Frente de Classe Oprimida. É preciso retomar a ideia da militância anarquista, que cria organização onde não há e fortalece as que já existem. Não nos servem posturas individualistas que não contribuem para recompor o tecido social, nem experiências autocomplacentes que sustentam espaços para alimentar os egos dos convencidos. É necessária uma militância de ação direta, mas que se dedique a tarefas organizativas, para que todo ataque ao poder seja cercado de massividade e legitimidade revolucionária.

Dois anos após comemorarmos os 50 anos do golpe civil-militar que deu início à sangrenta e brutal ditadura na região chilena, acreditamos que as reflexões que fizemos naquele momento ainda são válidas. Reafirmamos nossa postura crítica em relação ao governo institucional da UP [Unidad Popular] e seu projeto de modernização capitalista que impulsionou a conciliação de classes e o fortalecimento dos mecanismos estatais de dominação, assim como continuamos reconhecendo e enfatizando os processos que estavam sendo tecidos a partir das bases sociais, fora das pautas institucionais burguesas e das direções partidárias. Acreditamos que foram essas capacidades demonstradas pelas camadas populares e oprimidas que mobilizaram a conspiração golpista civil e militar.

Olhamos continuamente para o passado, num exercício de memória permanente contra o esquecimento, o que nos permite identificar com certeza o que aconteceu e revelar os aprendizados e as sabedorias práticas, de modo a disputar o presente e construir o futuro.