ConjunturaCrise ClimáticaNeoliberalismo

ANÁLISE DE CONJUNTURA – CAB – AGOSTO/2025


Dentro da atual conjuntura, as disputas por recurso se acirram sob o tabuleiro das relações internacionais e nos avanços da elite agrária do Brasil. Enquanto anarquistas, precisamos interpretar esses movimentos para atuar de maneira acertada dentro da luta popular.

Enquanto o governo Trump aperta o governo com sanções, na ânsia imperialista de espalhar mais seu domínio, o governo brasileiro utiliza como moeda de troca as terras raras. Na tentativa de frear uma guerra tarifária, Lula reserva um pedaço ainda maior da biodiversidade à lógica capitalista. Internamente, o Congresso Nacional aprova a PL da Devastação e o garimpo ilegal, escancarando um governo petista incapaz de responder a altura. A COP30, verniz do ambientalismo capitalista, abre ainda mais feridas nas terras de Belém. A familia Bolsonaro, se já não colocou nosso povo na miséria o bastante durante seus anos de governo, assumem papel de agentes do imperialismo, na esperança de evitar a prisão de Jair e sonhando que algo sobrará para eles na mesa dos ricos. A prisão do genocida pode ser um alívio necessário dentro do cenário conjuntural, e a comemoração de sua condenação pelo povo oprimido é justa, porém, longe de ser uma vitória concreta, é mais uma peça movimentada dentro do jogo das classes

A crise ambiental é uma crise do capitalismo. A base dessa crise é a exploração do povo por poucos que detêm a grande parte das riquezas: os senhores do agronegócio, os donos de indústrias e empresas altamente poluentes e os CEO das Big Techs com consumo extremo de água para seus data centers. dominantes. A exploração do povo pelos de cima vem junto com a exploração dos recursos da Terra, da necessidade de tirar minério de suas profundezas ou mesmo da geração de poluentes em grande escala. Não são os povos os responsáveis pelo colapso climático, são os ricos! Não bastasse o acelerado avanço das mudanças no clima, a elite colonialista ainda tem fome e pressiona o pouco de estrutura que conseguimos criar para brecar o avanço do capitalismo sobre nossos territórios com o PL da Devastação.

Em meio a tensões e negociatas, pressões do agronegócio e do Tarifaço de Trump, o PL da devastação (Projeto de Lei 2159/21) foi aprovado por Lula com 63 vetos, tendo algumas alterações em seu texto base, mas continua abrindo caminho para a impunidade na devastação de nossos biomas. Trata-se de um nítido ataque à vida de nossa gente nesse contexto de colapso climático, sobretudo aos povos da floresta. Além disso, precisamos enxergar a pauta desse PL tambem como uma questão crítica à classe trabalhadora, uma vez que, ao reduzir a obrigatoriedade do licenciamento ambiental, também irá reduzir as ofertas de trabalho para os profissionais da área ambiental. É necessário, portanto, encarar o seu desmonte também como uma questão sindical, de trabalhadores desse setor, aliando o discurso ambiental e territorial com o sindical, para que assim sejam garantidas as condições para o licenciamento ambiental, fruto da luta do povo organizado, bem como para o servidor público que trabalha nele.

Nossa proposição politica enquanto classes oprimidas está ligada a nossa ideia de ecologia social, para que desde já atuemos em nossos espaços de luta em conformidade com nossos planos para a sociedade futura, de integração entre ser humano e natureza. Apenas com participação efetiva da comunidade científica e populações atingidas, assim como decisões de base das comunidades camponesas, indígenas, ribeirinhas e quilombolas, enfrentaremos a crise instaurada pelos de cima. Defendemos a ideia de que a justiça climática e a sobrevivência de nossa gente só poderão ocorrer com a superação do capitalismo. Longe de ser uma questão de etapas, a destruição desse sistema e a construção de um novo mundo caminham juntas.

Na ofensiva comercial de Trump, com tarifa de 50% sobre as exportações, não devemos embarcar em um discurso de viés nacionalista e simplista como “O Brasil é dos Brasileiros”. Enquanto socialistas, somos internacionalistas e assim devemos nos pautar pela solidariedade internacional entre povos oprimidos. Lutamos pela autodeterminação dos povos, na sua participação nas decisões e nos rumos da vida econômica e política. A taxação de Trump permitiu um respiro de popularidade para Lula, uma retórica de “união nacional de diferentes classes sociais”, entre povo e setores do poder da burguesia – dos quais somos inimigos e que certamente não possuem o mesmo interesse que o nosso. Mais que uma parceria entre Trump e Bolsonaro, as tarifas têm como causa principal a questão do BRICS e como ele apresenta uma ameaça aos EUA, sobretudo no fortalecimento da China e nos indicativos crescentes de desdolarização.

Essa retórica de luta pela “soberania nacional” da elite brasileira cria uma ilusão de que governo está em conflito com o capital internacional e até com as Big Techs, enquanto na verdade ele está fazendo grandes investimentos junto a esses grupos. Um exemplo disso é o incentivo para a implementação de data centers para além dos 188 já existentes em território nacional. O governo petista já possui uma proposta de política de isenção fiscal, a ReData, para atrair essas empresas, que são conhecidas pelo alto consumo de energia e água. O objetivo do governo dos EUA é econômico e imperialista. Se for necessário, descartarão Bolsonaro para agradar as Big Techs ou prejudicar o BRICS de alguma maneira. Até o momento, nada indica que a aliança internacional da extrema-direta mantenha Trump na coleira ou garanta seu apoio incondicional. Com as tarifas, a burguesia brasileira aproveita para emplacar demissões e receber auxílios do estado, enquanto o preço dos alimentos sobe nos EUA. No fim das contas, nosso povo perde daqui e o povo estadunidense perde de lá, comprovando que não tem ganhador desde abaixo nas disputas dos de cima.

Nossa resposta a exploração do imperialismo deve ser uma aliança entre o povo oprimido: esse que não tem nação, nem fronteira, apenas sua solidariedade internacionalista. É fundamental que esse marasmo das ruas seja quebrado pela organização popular, denunciando os acordos das elites globais. Ainda que haja um sabor de comemoração em ver o ex-presidente acoado depois de anos de impunidade, sua prisão é mais uma ilusão da justiça burguesa. A espada da justiça burguesa não corta na própria carne.

A repressão seleciona os golpistas para conter o indesejável ou incontrolável no bolsonarismo, mas, por sua própria lógica, também faz avançar junto um aparelho penal para disciplinar todas as formas de protesto social. Com toda certeza queremos Justiça, Memória e Verdade e nos unimos com todo o movimento popular para que Bolsonaro e os demais golpistas não ganhem a impunidade, mas não vamos nos enganar com as circunstâncias. O judiciário é um elemento conservador do poder político burguês que tem essa função de acomodar todo conflito social ás regras do jogo do sistema. Os militares que carregaram o bolsonarismo no colo seguem impunes, assim como a instituição militar que nunca foi cobrada pelos seus crimes na Ditadura Empresarial-Militar. Além disso, os aliados de Bolsonaro no Congresso seguem trabalhando em suas pautas anti-povo, governando dentro das pautas conservadoras que atacam as liberdades das minoriais socias.


Na luta contra o bolsonarismo podem coincidir pontualmente muitas e diferentes posições, mas é preciso alerta total para que isso não se converta em uma espécie de capitulação progressista ao neoliberalismo; para que não vire recuo programático e subordinação dos sindicatos, movimentos sociais e organizações socialistas às pautas ditadas pelas elites dirigentes do Estado e pelos setores bugueses.

O arcabouço fiscal foi a forma que o governo petista encontrou de governar em negociação com setores da elite brasileira, cortar tudo e mais um pouco do que era possível de gastos com orçamento público e políticas sociais. Assim, dá para gastar todo esse dinheiro com os bancos por meio da divida pública, aceitando incomodar quando o arcabouço precisar ser rompido para garantir a boa saúde do empresariado agroexportador ou industrial. O governo sequer pensa em mexer nisso, porque está completamente enredado em acordos com os setores da direita, centrão, bancada do agro e setores da especulação financeira. O arcabouço fiscal tem pautado a maioria das decisões politicas e econômicas, uma continuidade do teto de gastos aprovado no governo Temer – então duramente criticado pelos petistas, que na época eram oposição.


O Plebiscito, importante forma de consulta popular, pauta a taxação dos ricos e o fim da escala 6×1, mas não chama o arcabouço fiscal para o debate, a fim de blindar o governo de ter que debater um instrumento anti-povo que sustenta seus acordos com setores da elite. O Plebiscito pode ser uma ferramenta de diálogo dos movimentos de base com setores do povo, aproximando o debate sobre a taxação dos ricos e sobre o fim desse regime exploratório de trabalho ao cotidiano das organizações populares. No entanto, o arcabouço fiscal deve ser aglutinado aos discursos em torno dessa construção de base dos plebiscitos, tensionando o governo petista e setores da esquerda que temem bater de frente com as elites desse país por conta do teatro eleitoral.

Não há o que se faça hoje no jogo dentro da democracia burguesa que garanta alguma vitória para as classes oprimidas em 2026. A saída para uma vida digna é a organização popular, com democracia direta, diálogo fraterno e ações construídas coletivamente com nossos pares nos locais de trabalho ou moradia, em nossos territórios. É preciso aumentar a pressão sobre esse governo que muito pouco tem oferecido aos de baixo, sem medo da extrema-direita.

A conjuntura torna urgente que nossos sonhos voltem a ter valor e a impulsionar nossas ações, com a pressa de quem busca no horizonte a própria sobreviência em tempos de crise climática. Construir agora o que queremos para o futuro!

Coordenação Anarquista Brasileira

Agosto de 2025